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quinta-feira

VIGÍLIA EUCARÍSTICA


Canto de entronização

Dirigente: Divino Jesus, com viva fé e ardente amor, cremos que estais realmente Presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia e nos prostramos aos Vossos Pés para adorar-Vos, em união com todos os nossos irmãos adoradores e com toda a Santa Igreja que neste Tríduo Pascal. Fazei Senhor que a nossa Paróquia viva intensamente esses momentos fortes que a Igreja nos apresenta como centro e cume de todo o Ano Litúrgico. Neste ano jubilar, unimo-nos de modo especial à Vossa SSma. Mãe, a Senhora de Aparecida que, aos pés da Cruz, tornou-Se também Nossa Mãe.
- Graças e Louvores se deem a todo momento
- Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento

- Bendita seja a Santa e Imaculada Conceição
- Da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus.


Todos: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e Vos amo. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.

«Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.
(Breve momento de oração pessoal)

1º quarto de hora:
Adoração

Leitor: Ler na Sagrada Escritura o Evangelho Mt 26,36-46
Momento de silêncio
Aclamações de Adoração (brevemente dizer a Jesus qual o motivo que lhe fez está aqui)

Dirigente: Senhor Jesus, em Vossa agonia, Paixão e dolorosa Morte de Cruz, Vós nos destes o exemplo de perfeita submissão aos desígnios do Pai, desejosos de aprender convosco a obedecer sempre, mesmo quando a Cruz pesa sobre os nossos ombros, queremos dizer todos juntos a Deus Pai algumas palavras:
- Com Vosso Filho Jesus, escolhemos, ó Pai, a Vossa Vontade.
Todos: Com Vosso Filho Jesus...
Dirigente: Quando a tentação bater à nossa porta, procurando seduzir-nos com prazeres atraentes e enganosos que nos aprisionam, repetiremos confiantes:
Todos: Com Vosso Filho Jesus...
Dirigente: Quando a oração se tornar pesada, porque o cansaço da vida, as preocupações querem tirar-nos todo o desejo de estar aos Vossos Pés em humilde Adoração, repetiremos confiantes:
Todos: Com Vosso Filho Jesus...
Dirigente: Quando percebermos que a Vossa Vontade se torna exigente para nós, porque pede a renúncia de muitas coisas que em nossa vida não Vos agradam tanto, repetiremos confiantes:
Todos: Com Vosso Filho Jesus...

Canto
A ti meu Deus/ Elevo meu coração/ Elevo as minhas mãos / Meu olhar, minha voz./ A ti meu Deus eu quero oferecer/  Meus passos e meu viver/ Meus caminhos, meu sofrer.

A tua ternura Senhor vem me abraçar/ E a tua bondade infinita me perdoar/ Vou ser o teu seguidor e te dar o meu coração/ Eu quero sentir o calor de tuas mãos.


                   2º quarto de hora:
Ação de Graças

Dirigente: Meditemos nestas palavras de São João Paulo II, em seu Documento: Ecclesia de Eucharistia:

Leitor 2: “Do mistério pascal nasce a Igreja. Por isso mesmo, a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial. Isso é visível desde as primeiras imagens da Igreja que nos dão os Atos dos Apóstolos: ‘Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações’ (2,42). Na ‘fração do pão’ é evocada a Eucaristia. Dois mil anos depois continuamos a realizar aquela imagem primordial da Igreja. E, ao fazê-lo na celebração eucarística, os olhos da alma voltam-se para o Tríduo Pascal: para o que se realizou na noite de Quinta-feira Santa, durante a Última Ceia, e nas horas sucessivas.

Leitor 3: De fato, a instituição da Eucaristia antecipava sacramentalmente os acontecimentos que teriam lugar pouco depois, a começar pela agonia no Getsêmani. Revemos Jesus que sai do Cenáculo, desce com os discípulos, atravessa a torrente do Cedron e chega ao Horto das Oliveiras. Existem ainda hoje naquele lugar algumas oliveiras muito antigas; talvez tenham sido testemunhas do que aconteceu junto delas naquela noite, quando Cristo, em oração, sentiu uma angústia mortal, ‘seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam no chão’ (Lc 22,44). O sangue que pouco antes tinha entregue à Igreja como vinho de salvação no sacramento eucarístico começava a ser derramado; sua efusão completar-se-ia depois no Gólgota, tornando-se instrumento de nossa redenção: ‘Cristo, porém, veio como Sumo Sacerdote dos bens futuros [...] entrou uma vez por todas no Santuário, não com o sangue de bodes e bezerros, mas com seu próprio Sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,11-12). Quanto sofrimento por causa de nossos pecados! Pensemos sobre isto.
Momento de silêncio

Dirigente: Que presente maior poderíeis ter nos dado, ó amantíssimo Jesus, do que este Preciosíssimo Dom da Santíssima Eucaristia, que sois Vós mesmo realmente Presente na Hóstia Consagrada para ser Nosso Alimento, Nosso Companheiro, Nosso Mestre, Nosso Tudo? Com o coração transbordante de gratidão, queremos dizer-Vos agora e sempre:
- Nós Vos agradecemos, por Vossa Presença de Amor.
Todos: Nós Vos agradecemos, por Vossa Presença de Amor.
Leitor 1: A infinita prova de amor que nos destes entregando a Vossa Vida na Cruz para nossa salvação, se renova cada vez que se celebra a Santa Missa, pois a Eucaristia é o Memorial da Paixão. Juntos, Vos bendizemos por tanto amor:
Todos: Nós Vos agradecemos...
Leitor 2: Jesus, viestes a este mundo com o desejo de abrir para nós as portas do Céu que foram fechadas pelo nosso pecado. Ao morrer na Cruz, reparando todos os pecados de todos os tempos, estava consumada a nossa redenção. Mas quisestes permanecer conosco neste Sacramento. Juntos, vos bendizemos por tanto amor:
Todos: Nós Vos agradecemos...
Leitor 1: Por todo o amor que nos testemunhastes em Vossa Sagrada Paixão e Morte e pelo amor que demonstrais a cada pessoa que Vos recebe na Sagrada Comunhão, onde nos comunicais infinitos tesouros de graças, somos eternamente gratos. Juntos, Vos bendizemos por tanto amor:
Todos: Nós Vos agradecemos...
Canto
Vinde, ó irmãos, adorar, vinde adorar o Senhor / A Eucaristia nos faz Igreja, comunidade de amor (bis)

Partimos o único pão, no altar-refeição, ó mistério de amor / Nós somos sinais de unidade na fé, na verdade, convosco, ó Senhor.

3º quarto de hora:
 Reparação

Dirigente: Em atitude de humilde reparação pelos nossos pecados e pelos pecados de todo o mundo que foram a causa dos sofrimentos do Nosso Divino Redentor, aqui estamos fazendo companhia a Jesus.
Leitor 3: “A hora da nossa redenção. Embora profundamente angustiado, Jesus não foge ao ver chegar sua ‘hora’: ‘E que direi? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim’ (Jo 12,27). Quer que os discípulos lhe façam companhia, mas de experimentar solidão e abandono: ‘Não fostes capazes de ficar vigiando uma só hora comigo. Vigiai e orai, para não cairdes em tentação’ (Mt 26,40-41). Aos pés da cruz, está apenas João, ao lado de Maria e das piedosas mulheres. A agonia no Getsêmani foi o prelúdio da agonia na cruz da Sexta-feira Santa. A hora santa, a hora da redenção do mundo. Quando se celebra a Eucaristia, volta-se de modo quase palpável à ‘hora’ de Jesus , a hora da cruz e da glorificação. Àquele lugar e àquela hora se deixa transportar em espírito cada presbítero ao celebrar a Santa Missa, juntamente com a comunidade cristã que nela participa.
Momento de silêncio
Aclamações de reparação:
Dirigente: Com o coração contrito, mas cheio de confiança em Vossa infinita Misericórdia da qual nos destes tantas provas entregando a Vossa Vida para livrar-nos da morte eterna, queremos pedir humildemente:
- Perdão Jesus, porque somos ainda tão pecadores.
Todos: Perdão Jesus, porque somos ainda tão pecadores.
Dirigente: Senhor Jesus, sabemos que estais Presente e Vivo neste Adorável Sacramento, mas tantas vezes nos aproximamos de Vós sem verdadeiros sentimentos de fé e de amor, sem a devida atitude de respeito e recolhimento. Com o propósito de uma sincera conversão, Vos pedimos:
Todos: Perdão, Jesus...
Dirigente: Na Santa Missa se renova o Sacrifício do Calvário. Mas tantas vezes participamos da Eucaristia de forma tão dissipada e superficial, como se fosse uma reunião como tantas outras. Com o propósito de uma sincera conversão, Vos pedimos:
Todos: Perdão, Jesus...
Dirigente: Vós nos advertistes: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.” Mas, muitas vezes damos mais atenção às vozes tentadoras do mundo do que à Vossa Palavra que nos chama à oração, à Adoração, à penitência, à mudança de vida. Com o propósito de uma sincera conversão, Vos pedimos:
Todos: Perdão, Jesus...
Canto de Reparação
Pelos pecados erros passados por divisões na tua Igreja ó Jesus.
Senhor piedade! Senhor piedade! Senhor piedade! Piedade de nós (bis)

Quem não te aceita quem te rejeita pode não crer por ver cristãos que vivem mal.
Cristo piedade! Cristo piedade! Cristo piedade, piedade de nós (bis)

Hoje se a vida é tão ferida, deve-se a culpa e a indiferença dos cristãos!
Senhor piedade! Senhor piedade! Senhor piedade! Piedade de nós (bis)



                4º quarto de hora:
Súplica

Dirigente: Jesus Querido, queremos agora meditar alguns dos ensinamentos do grande apóstolo de Vossa Presença Eucarística, São Pedro Julião, que nos ajudarão a ter ainda maior confiança em Vosso Amor neste Divino Sacramento.
Leitor 2: O que é a Eucaristia? A fim de que não esquecêssemos porque Nosso Senhor Se colocou sobre o Altar, o que dizia o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo? Isto é Meu Corpo, comei, Isto é Meu Sangue, tomai-O, bebei dele todos. Em memória de que? De Sua Paixão, pois essas palavras da Consagração são as próprias palavras de Nosso Senhor, anunciando que Ele ia ser entregue aos Seus inimigos.
Leitor 3: A Santíssima Eucaristia é o memorial da Paixão de Nosso Senhor, é a continuação da vida de Nosso Senhor no meio de nós, de Sua Paixão de amor. Ele terminou Sua Paixão sangrenta, era a Paixão de nossa redenção, mas Sua Paixão Eucarística é uma Paixão de amor. Nosso Senhor é Vítima. Como Ele não pode mais sofrer nem morrer realmente, porque Ele está em Sua Vida ressuscitada, Ele toma a forma de Vítima e nos deixa o resto; de forma que quando sofremos em união com Jesus no Santíssimo Sacramento, de alguma forma nós Lhe restituímos Sua Vida de redenção, não somente isso, mas completamos Sua Vida Eucarística.”
Momento de silêncio
Aclamações de súplica:
Dir. Antes de nos afastar-nos de Jesus no Horto, recorramos às riquezas infinitas de Vosso Coração divino com os nossos pedidos. (momento de silêncio para a oração pessoal)

Todos: Escutai Senhor o pedido da vossa Igreja aqui reunida.

• O primeiro desejo de Jesus é a salvação das almas; redimir o mundo por meio do amor, estabelecer o Reino do Amor Infinito em toda a terra.

• Ó Jesus, Sacerdote eterno e Salvador do mundo, para realizar este ardente desejo de Vosso Coração, multiplicai as vocações da vossa Igreja, principalmente vocações novas e santas para a Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses. Enviai muitos e santos operários para Vossa messe.

• Ó Jesus, fazei de cada sacerdote um verdadeiro semeador de Vosso amor e um instrumento eficaz de vossa Santidade no mundo.

• Rogo-Vos pelo Santo Padre, pelos Bispos, por todos os sacerdotes que nos fizeram o bem, especialmente os pastores que por aqui passaram.

Dir.  Por todas as almas do purgatório, especialmente as devotas do Coração de Jesus, pelas necessidades da Igreja e por todos os lugares que foram proibidos de celebrar a Páscoa do Senhor, rezemos. Pai Nosso. Ave Maria.

Todos: Deus, nosso Pai e Senhor, nós vos louvamos e bendizemos, por vossa infinita bondade.

Criastes o universo com sabedoria e o entregastes em nossas frágeis mãos para que dele cuidemos com carinho e amor.

Ajudai-nos a ser responsáveis e zelosos pela Casa Comum. Cresça, em nosso imenso Brasil, o desejo e o empenho de cuidar mais e mais da vida das pessoas, e da beleza e riqueza da criação, alimentando o sonho do novo céu e da nova terra que prometestes.
Canto de despedida

segunda-feira

A ESSÊNCIA DA VIDA LITÚRGICA DA IGREJA

Podemos afirmar categoricamente, à luz da experiência de fé, que a liturgia consta de elementos humanos e divinos presentes dentro na Igreja. Os divinos não podem ser alterados pelos homens, porque foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo; os humanos, ao contrário, com a aprovação da Santa Sé, assistida pelo Espírito Santo, podem mudar de acordo com as exigências dos tempos, dos lugares e dos fiéis, como constatamos pela história da vida litúrgica da Igreja. Benedictus PP. XVI cita:
Esta Tradição de origem apostólica é realidade viva e dinâmica: ela “progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo”; não no sentido de mudar na sua verdade, que é perene, mas “progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas”, como a contemplação e o estudo, com a inteligência dada por uma experiência espiritual mais profunda, por meio da “pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade”(...) A Tradição viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus.[1]
A necessidade de estudar a liturgia, seus fins e sua importância para a Igreja, é algo fundamental para termos uma verdadeira compreensão do significado que a simbologia litúrgica oferece a cada um de nós. Com Ratzinger diremos que o conhecimento da Liturgia é o “centro inspirador da Igreja e da vida cristã na sua beleza, riqueza oculta de uma grandeza que transcende o tempo.”[2]
O povo escolhido por Deus foi convidado a abandonar toda a prática de idolatria[3], procurando tributar à Divindade revelada[4] um culto agradável que deveria ser instrumento de glorificação para Ele e de santificação para si mesmo.
Quando nos debruçamos sobre a vida ritual da Igreja, constatamos que a alma do povo escolhido na Nova Aliança era convidada no avanço da história, ter característica propriamente cristã, tendo como ponto central de sua fé a Santíssima Trindade[5] revelada no próprio Cristo imolado em cada sacrifício eucarístico. A oração da Igreja, desde os primeiros dias de sua instituição passa a ser a oração do próprio Cristo. Já dizia Agostinho ao comparar o “Corpo de Cristo” ao nosso corpo mortal. O que é a alma para o corpo do homem, assim também é o Espírito Santo no corpo de Cristo[6]. Na liturgia podemos constatar que Corpo e Alma se tornam um, formando um único ser (Cristo e os batizamos), pela ação do Espírito Santo.

Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl



[1]              BENEDICTUS PP. XVI (Joseph Ratzinger Aloisius). Verbum Domini. São Paulo: Paulinas, 2011, pp. 39-40.
[2]              RATZINGER, Joseph Aloisius. Introdução ao espírito da Liturgia. 2ª. ed. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 5.
[3]              Ex 20, 1.
[4]              CIC. art. 51,
[5]              id. art. 234.
[6]              MADRID, Teodoro C. La Iglesia Católica según San Agustin: Compendio de Eclesiologia. Madrid: Agustiniana, 1994, p. 135.

A LITURGIA DO POVO ESCOLHIDO POR DEUS




Deus procurou, segundo a Sagrada Escritura, revelar sua bondade e graça ao demonstrar que a obra da criação partiu do seu amor em favor do homem. Uma vez conhecido, procura fazer pactos com aqueles que se comunica e cria relação de intimidade[1], para provar sua fidelidade. Da descendência de Abraão[2], com quem tinha feito uma Aliança[3], escolheu Israel e dele fez uma nação exclusiva para que fosse o povo de sua propriedade[4]. Quando os escolhidos foram escravizados o Senhor o libertou, supriu as suas necessidades durante a peregrinação no deserto e lhes concedeu a terra de Canaã[5].

A partir do Novo Testamento (NT) a Igreja (novo povo de Deus)[6], instituída por Cristo e edificada sobre a presidência de Pedro[7], conforme a teologia tradicional católica afirma, viu na Liturgia a “fonte e cume de sua ação sagrada no mundo, tendo como legado, celebrar os santos Mistérios”[8] do Senhor. A base desta afirmação encontramos no capítulo segundo da Lumen Gentium (LG) do CVII, em que apresenta a intenção de Deus de sempre reunir a “humanidade num povo; com a nova aliança, que Cristo realizou no seu sangue”[9].

Este povo tem uma fonte donde emana a sua força. Qual? A Liturgia: “cimo para qual se dirige a sua ação”[10]. Este serviço sagrado tem natureza própria, qual a Igreja denomina como “espírito da liturgia”[11]. A Comunidade dos batizados, portanto, fiel ao mandato de seu divino Fundador, continua seu ofício sacerdotal, sobretudo na liturgia. Não é uma recordação saudosista, mas memorial, sacramental. Para nos ajudar na reflexão Juan Javier afirma:
A Igreja atua junto com seu divino Fundador. Esse princípio de verdade explica porque o culto é santo e tem o poder santificante. Nele está latente a força de Cristo, que age maravilhosamente em sua Igreja e em toda sua ação litúrgica.[12]

Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl



[1]              Gn 9, 9; 9, 16; 26, 28; 31, 44; Ex 2, 24.
[2]              Hb 11, 10.
[3]              Gn 15, 18.
[4]              Dt 7, 6-9.
[5]              Nm 13, 2.
[6]              CVII. p. 119.
[7]              Mt 16, 18.
[8]              CIC. art. 1165.
[9]              CVII. p.113.
[10]             id. ibid. p. 39.
[11]             GONZÁLES, Ramiro. Piedade popular e liturgia. São Paulo: Loyola, 2007, p. 139.
[12]             FLORES, Juan Javier. Introdução à Teologia Litúrgica. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 276.

Padre Cícero, modelo dos propagadores da devoção à Virgem Maria no Brasil

Não podemos seguir adiante com nossa reflexão, sem deixar de trazer aqui as consoladoras palavras da Igreja sobre o serviço apostólico do mais ilustre filho do Brasil, o grande Padre Cícero Romão Batista. Para os que não conhecem a verdadeira história do Vigário de Juazeiro, alguns Papas se ocuparam em conhecê-lo e acolhe-lo como verdadeiro amante da Igreja.
Desde o Papa Leão XIII[15] que o recebeu pessoalmente para ouvir de sua própria boca os relatos que o envolvia, até os papas Bento XVI e Francisco que se interessaram por este servo de Deus, chegando a reconhecer no ilustre filho do Nordeste sua influência positiva, afirmando ser o Padre Cícero aquele que “continua a exercer junto aos romeiros, um papel educador da sensibilidade católica”[16]. Dentre tantas palavras expressas neste reconhecimento da Igreja, trazemos aqui a mais marcante citada: “É necessário, neste contexto, dirigir nossa atenção ao Senhor e agradecê-lo por todo o bem que ele suscitou por meio do Padre Cícero”.[17]
Ali o povo não estava sozinho! A Mãe de Jesus, estava com ele.
A devoção propagada por este servo de Deus a Nossa Senhora das Dores, tocou profundamente o ser de todos os filhos do Sertão Nordestino do Brasil que passou a ver a vida com mais esperança, em meio a tanto sofrimento causado pela seca e pelos desmandos da política da época. Ali o povo não estava sozinho! A Mãe de Jesus, estava com ele. A forma mais concreta de se sentir próximo de Nossa Senhora, seria por meio da reza do Santo Rosário, da prática do Evangelho que deveria ser traduzida em boas obras.
O próprio Padre Cícero não cansava de pedir aos fiéis que não deixasse de ter em casa duas coisas: “Um oratório e uma oficina”, traduzindo as palavras de Santo Agostinho em forma prática aquilo que deveria ser a vida cristã pautada na “Oração e no Trabalho”[18], tão fundamentais na vida do homem. É muito interessante vermos este contexto histórico, geográfico e político em que o “Padrinho” está situado. A pequena igreja de Nossa Senhora das Dores era para o povo a casa da Mãe. Vejamos o que diz Megale sobre esta devoção:
Até a reforma litúrgica determinada pelo Concílio Vaticano II, a Igreja celebrava duas festas em homenagem a Nossa Senhora das Dores; a primeira, na sexta-feira da semana que chamavam “da paixão”, antes do Domingo de Ramos, e a outra no dia 15 de setembro. Na semana da Paixão, homenageava-se a fortaleza e a paciência com que a Santíssima Virgem suportou os sofrimentos de seu Divino Filho, ocasião em que seu coração de Mãe foi trespassado por uma espada de dor, conforme profetizava o velho Simeão. Na segunda festa das Dores de Maria (em setembro), que é hoje a única existente na liturgia romana, comemorava-se todos os seus sofrimentos, especialmente as sete dores principais que a Virgem teve durante a vida, paixão e morte de Jesus. Por esse motivo, a Imagem de Nossa Senhora das Dores, cuja invocação é relativamente recente, pois data do século XVIII, aparece algumas vezes com o coração trespassado por uma espada, outras, por sete punhais, mas em todas a sua fisionomia exprime agonia e resignação.[19]
NOssa senhora das dores.jpgPadre Cícero, com seu amor de pai e pastor, não desanimou em meio a tanta dificuldade sofrida e sentida na pele, pelo simples fato de que Deus e o povo humilde tem prioridade na vida de todos. E em todos os lugares. A Virgem Maria, respassada com uma espada, tão devotada e propagada por este eminente sacerdote, para fazer parte da vida do povo, multidões vão a Juazeiro porque ali tinha um padre que poderia acolher a todos debaixo do manto de Nossa Senhora, mãe da Vida. Ir a Juazeiro, segundo os romeiros, pode renovar a esperança de quem sofre, por isto todos querem chegar lá, levando seus pesados fardos, depositá-los nos pés da Virgem das Dores, e voltar para suas casas com a coragem recebida, afim de mudar a realidade de morte deixada em suas terras de origem. Esta ação praticada pelos mais pobres nos faz lembrar da magnífica explicação do mariólogo espanhol José Paredes, quando vem dizer o seguinte:
A espada que atravessará a alma evoca a espada de que fala com certa frequência o profeta Ezequiel: a espada da discriminação de que Deus se serve para dividir a seu povo em duas partes: os que caíram e os que formaram o resto dos sobreviventes. Evoca também o Servo de Jahweh, ao qual, chamado desde o seio de sua mãe, Deus lhe concedeu uma boca como espada afiada (cf. Is 49, 1-2). Também na linguagem neo-testamentária, a espada é símbolo da revelação divina, que atua ao mesmo tempo como juiz e obriga aos homens a manifestar as intenções ocultas de seu coração, produzindo neles uma divisão. Jesus mesmo dizia: “Eu não vim trazer paz, senão a espada” (Mt 10, 34) ... Na caída e levantamento de muitos em Israel, Maria figurará entre o reduzido número dos que se levantaram, pertencerá a este punhado de pessoas, como uma companhia dos crentes (At 1, 12-15).[20]
nossa_senhora_das_dores_juazeiro_1Aqui nós vemos o sentimento mais eminente que estava presente no coração do Padre Cícero! Ao mesmo tempo podemos identificar algo misterioso que faz parte da mariofania tão estudada pela teologia mariana. Que lugar tem Maria, a mãe de Jesus, no pensamento deste amado filho cearense? Um lugar simultaneamente discreto e importante, sempre associado à pessoa, obra e missão de seu Filho, Jesus. Discreto, porque tudo gira e centra-se em torno do Coração de Jesus, da Sua pessoa e missão. Jamais encontramos nas palavras do Padre Cícero examinadas aqui, algum exagero que aos olhos da teologia fosse inadmissível. Podemos dizer que nas expressões do Vigário de Juazeiro identificamos uma manifestação de carinho de um povo para com a maternidade de Maria. Tal demonstração de amor é depositada sobre uma simples imagem de aproximadamente um metro e vinte de altura que atrai gerações de todas as partes do Nordeste para esta cidade do Juazeiro, transformando assim este lugar em um centro de peregrinação, capaz de chamar a atenção do mundo para a contemplação dos mistérios da Paixão, morte e ressurreição do Senhor.
Padre Cícero em Juazeiro, aponta para a Virgem Maria e para o Sagrado Coração de Jesus.Esta devoção hoje em dia, ainda conserva a fé, irradia a misericórdia de Deus e reacende no coração do povo o desejo de continuar sua caminhada rumo ao céu.
A mariologia não pode se calar frente a este ato devocional iniciado pelo Padre Cícero que a cada dia que passa só vem crescendo com uma força muito grande. A devoção a Virgem das Dores não é fruto de uma invenção do misticismo que a Igreja procurou sempre corrigir, mas nasceu do desejo da conformidade do povo cristão em unir-se à Via Sacra do Filho de Deus, em meio a tantos sofrimentos vividos. “Maria é mãe, passou por isto e conhece a minha dor”, assim expressa um devoto de Nossa Senhora educado pelo Padre Cícero.
O doce Vigário tão citado aqui, ao escrever seu testamento, faz transparecer um forte amor pela Virgem Maria, citando-a por quinzes vezes, do começo ao fim. Dentre elas, duas nos chamaram a atenção quando diz: “Afirmo que nunca fiz mal a ninguém, nem a ninguém votei ódio, sem rancor e que sempre perdoei, por amor a Deus e a Virgem Maria”. E ainda: “Venerando e amando sempre a Virgem Santíssima Mãe de Deus, único remédio de todas as nossas aflições”.Nestas palavras somos impactados, não por seu forte teor devocional, mas por sua confiança filial na Senhora vista como um oásis em meio a dura realidade vivida pelo povo. Padre Cícero foi um promotor da justiça e da paz, sem falar muito, mostrou ser um verdadeiro homem de fé, procurando ser um imitador das virtudes da Mãe do Senhor. Para entender melhor esta afirmação, recordamos algumas palavras de um artigo publicado pela Academia Marial de Aparecida sobre a “imitação da Virgem Maria”, vejamos:
 
Imitar a Maria é nunca perder de vista o nosso fim último (o céu), procurando aplicar-se nas práticas virtuosas
Imitar a Maria é nunca perder de vista o nosso fim último (o céu), procurando aplicar-se nas práticas virtuosas, nas quais ela mesma nos deu o exemplo: O serviço da Caridade para com o próximo (Lc 1, 39), a prática da Oração que denunciava sua fé inabalável (At 1, 14), a Escuta da Palavra que demonstra seu terno amor a Jesus Cristo (Lc 2, 19) e viver em estado de Humildade profunda (Lc 1, 38), procurando sempre ser submisso à vontade de Deus em uma vida simples e silenciosa.[21]
Concluímos dizendo que o Padre Cícero traduziu da melhor maneira possível a grandeza de Maria para um povo simples
Concluímos dizendo que Padre Cícero traduziu da melhor maneira possível a grandeza de Maria para um povo simples, fazendo os mais humildes entenderem que Nossa Senhora “das Dores” é a mulher ícone do Mistério, mas ao mesmo tempo é Mãe; não somente de Jesus, o Cristo, mas de todos aqueles que a invocam. A devoção fomentada pelo “Padrinho” aparece como incentivo para a fé e amor a Jesus, permitindo a todos os que desejam entregar “suas vidas” e também “seus haveres” àquela que tem uma igrejinha “santuário” no meio do estado do Ceará da Federação Brasileira, possam recebam proteção nesta vida e descanso na glória futura.
 Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl
(Membro da Academia Marial de Aparecida)
[15]  Padre Cícero teve um encontro com o Papa Leão XIII, do qual resultou na alegria de poder seguir exercendo seu ministério sacerdotal em “terras brasilienses” sem nenhuma restrição. Este encontro se deu no dia 06 de outubro de 1898. GUIMARÃES, Trerezinha Stella/ DUMOULIN, Anne. O Padre Cícero por ele mesmo. 2ª. ed. Fortaleza: Inesp, 2015, p. 147.
[16]  Carta do Papa Francisco ao Sr. Bispo da Diocese do Crato – CE.
[17]  FRANCISCO. Carta dirigida a Sua Excelência Reverendíssima Dom Fernando Panico – Bispo Diocesano de Crato. Congregazione per la Doutrina dela Fede. Protocolo 319/ 14-48388, de 27 de outubro de 2014.
[18]  Este lema tornou-se por meio da Regra de São Bento algo bem conhecido em todo o mundo, porém a origem dessas ações já foi registrada na obra de Santo Agostinho chamada “O trabalho dos Monges”, quase dois séculos antes de São Bento.
[19]  MEGALE, Nilza Botellho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 146.
[20]  PAREDES, José Cristo Rey Garcia. Maria en la Comunidad del Reino: Síntesis de Mariogía. Madrid: Claretianas, 1988, pp. 105-106. Tradução livre.
[21] SILVA, José Wilson Fabrício da. A Imitação da Virgem Maria. Disponível em:http://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/a-imitacao-da-virgem-maria

Análise crítica sobre a Consagração composta pelo Padre Cícero Romão Batista a Nossa Senhora

No decorrer da história do cristianismo a devoção a Virgem Maria foi crescendo conforme o avanço da sistematização teológica sobre o plano divino da salvação. No século VII, já tínhamos além do reconhecimento da Maternidade Divina dado em 431, também constatamos uma liturgia celebrada em honra do nascimento da filha de São Joaquim e Santa Ana no mundo Oriental. Na Idade Média vimos surgir diversos homens e mulheres que se debruçaram sobre a teologia, extraindo um suave perfume chamado de nascimento da mariologia sistemática, tendo como representantes São Leão I[1] e o famoso monge São Bernardo de Claraval. Tais práticas de amor tributados à Mãe de Jesus se generalizaram em todo o orbe católico. Na Idade Moderna e Pós-Moderna começaram a aparecer devotos críticos e escrupulosos, tachando os piedosos atos de reverência à Mãe de Jesus de “indiscretos” ou “exagerados”. Na França, os jansenistas chegaram a distribuir vários panfletos contendo “advertências" contra os “excessos" de amor à Maria. Igual a algumas objeções encontradas nos dias de hoje. Para defenderem suas objeções, tinham como base a chamada “purificação do cristianismo”. Esses críticos diziam que o próprio Jesus tratou com desprezo sua mãe, pois a chamava de “mulher”. Nada mais falso! Se é verdade que o Filho de Maria quis humilhá-la, por que a quis escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade, como testemunham as próprias Escrituras[2]? Quer dizer, os Evangelhos falam pouco de Maria, porque seu objetivo não era fazer da mãe a verdadeira razão da Mensagem escrita, mas apresentar o “Filho da Mulher” como Senhor e Salvador do mundo. Também é certo que, após ascender aos céus, por vontade própria desejou ter ao seu lado aquela que o gerou na carne. Isto atestamos na imagem do Apocalipse no capítulo doze, onde vemos Maria como Imagem da Igreja já glorificada, como atesta a nossa fé. Fixar nossa atenção sobre a teologia mariana é chegar à conclusão de que cumpriu-se a profecia do Magnificat: “Doravante, todas as gerações hão de chamar-me bem-aventurada"[3].
Em algumas datas marcantes do ano, Juazeiro do Norte se transforma em um dos lugares de peregrinação católica mais visitados do Brasil. Dentre elas, citamos os dias vinte de cada mês, dia dois de fevereiro, quinze de setembro e dois de novembro. Qual movedor principal que atrai devotos de todo o Nordeste brasileiro e curiosos de diversas partes do mundo? Dizemos que é a fé na intercessão de Nossa Senhora implantada por Padre Cícero Romão Batista. Este sacerdote tornou-se no final do século XIX, um segundo Cura de Ars para o cariri cearense, chamando-os à conversão e a praticar a religião católica com seriedade. Nosso trabalho tem como objetivo, analisar a singela oração de consagração à Virgem Maria que vem atravessando gerações, chegando aos nossos dias com todo vigor, presente no coração da “Nação Romeira”. Existe algum problema para a teologia católica em interpretar e corrigir tal composição? Qual visão mariológica tinha o Padre Cícero ao propagar as devoções a Senhora das Dores e ao rosário, tão utilizado pelos fiéis católicos no século XX? Entremos nestas questões com um sentimento cristão, encarnando a vivência da devoção popular.
Oração de Consagração composta pelo Padre Cícero

Padre Cícero

“Mãe de Deus, Mãe Soberana, Mãe Poderosa, Nossa Senhora das Dores.De hoje para sempre eu me entrego a vós como filho e servo. Consagro ao vosso serviço o meu corpo, minha alma e tudo que me pertence. Abençoa a minha família, os meus trabalhos e meus haveres. Sede minha protetora na vida e conduzi-me ao céu para viver por toda a eternidade. Amém!”

 



Por que os católicos se consagram a Maria, se a verdadeira consagração é feita a Deus? 
Consagrar-se vem do latim cum sacrare e significa “tornar sagrado”. Uma pessoa ou um objeto se torna sagrado quando se dedica à Deus ao se oferecer e lutar por pertencer ao Senhor. Cada criatura humana batizada em nome da Trindade Santíssima se torna “propriedade do Divino”. Então, quer dizer, que se já somos exclusividade de Deus, “não precisamos mais nos consagrar a Maria?” Assim podem pensar alguns cristãos, e não estão errados. Porém, a Igreja ouvindo a manifestação de carinho de seus filhos e conhecendo a santidade e o lugar que a Virgem Santíssima ocupa no coração de Deus, não se manifesta contrária à tal prática devocional em nenhum período da história do cristianismo, porque foi o próprio Jesus que fez João receber Maria por mãe, e toma-la como propriedade em sua casa (Jo 19, 27).
 
"Consagração" é o nome curto dessa devoção, cujo nome completo é 'consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria'
Para entendermos melhor o que vem a ser este ato de entrega filial dos católicos à Mãe de Jesus, é de fundamental importância conhecer a obra “Tratado a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria” de São Luiz Grignion de Montfort. O santo mariano deixa bem claro que “consagração" é o nome curto dessa devoção, cujo nome completo é “consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria". Ou seja, quando nos consagramos à Nossa Senhora, a entrega é feita a Cristo, por meio de Sua mãe. Podemos até fazer uma consagração diretamente ao Senhor, mas como ele inaugurou esta via segura que pode ser uma segunda opção de tocar profundamente o seu Santíssimo Coração, por meio de sua santa Mãe, nossa entrega não se perderá no caminho do céu. Isto jamais diminui a mediação de Jesus, Esposo da Igreja. Sendo assim, os cristãos se entregam de modo total a Maria de Nazaré (ou de Jerusalém, da Palestina, Lurdes, Fátima, Lujan, Ráquira, Aparecida, Belém, Juazeiro, Passira, etc.), repetindo o que também foi o lema do pontificado de São João Paulo II: Totus tuus ego sum, Maria, et omnia mea tua sunt – “Sou todo teu, Maria, e tudo o que é meu pertence a ti”.
O Padre Cícero tinha consciência de que consagrar-se a Maria não significava apenas se colocar nas mãos daquela que gerou, alimentou, “educou”, e, desde o nascimento de seu Filho, soube contemplar os mistérios que sua razão não compreendera[4]. Mas, entendia que esta “total entrega” à Mãe de Deus resultaria em um meio seguro e eficaz de união com o Salvador da humanidade que a tem por “cuidadora especial”. O “Padrinho do Juazeiro” não duvida de que, aquela que acolheu e “conservou em seu coração”[5] a manifestação de Deus, pode também receber o pedido de pertença dos cristãos e colocar-se do lado deles, porque tem consciência que o pecado enfraquece a relação que o povo tem com o Filho, e, como mãe do “Juiz e do réu”, também pode assumir o papel de “advogada” entre ambos, apelando pela misericórdia do Justo e a conversão do injusto.
A Virgem Maria tanto doa um pouco de nós para Deus, como doa tudo de Deus para nós. Isto pudemos constatar na sua visita a Santa Isabel: “Logo que a tua saudação chegou a meus ouvidos, a criança pulou de alegria em seu ventre; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”.[6]Observem a palavra: “E Isabel ficou cheia”, repleta, foi tomada pelo Espírito de Deus, pelo simples e grandioso fato da visita inesperada da Mãe do Senhor em sua casa. Esta cena reclama de nós o silêncio! Não falemos, apenas contemplemos a alegria de João Batista ainda no ventre de Isabel e meditemos nas palavras proclamadas debaixo do teto da casa de Zacarias.
Acreditamos que Maria está sempre aconselhando os “membros do corpo de Cristo” para “fazer o que Jesus deseja”[7]. E quando por vontade própria alguém decide cumprir seu mandato seguindo seu exemplo, ela procura incutir em sua consciência de que esta consagração só será perfeita se tiver como finalidade o alcance da santidade desejada por Deus: “Sede santos, como o Senhor vosso Deus é Santo”[8].  
A concepção mariológica presente nas palavras do Padre Cícero
 
Padre Cícero sabia que ninguém melhor do que a Virgem Maria pode ser modelo
Padre Cícero sabia que ninguém melhor do que a Virgem Maria pode ser modelo, depois de Jesus, para todo o povo eleito tomar por seguimento em caminho de santificação. Ele crer que ela é a Theotókos[9] e Poderosa, não por méritos próprios, mas devido a missão de colaboração no Plano Divino da Salvação e pelos méritos exclusivos de Cristo. Pois, sem Jesus, Maria não teria tanta significância para o “novo povo de Deus”. Ao chamar Nossa Senhora de “Soberana”, não a quis colocá-la no mesmo patamar do verdadeiro Soberano de toda criatura. Mas, vivendo em um país onde o governo brasileiro ainda era Imperial, quer dizer, baixo a coroa da família real portuguesa, o Padre do Juazeiro equiparava a solicitude da Mãe de Jesus com a imagem da “Imperatriz” reinante no Brasil, porém, sendo a Senhora das Dores, mulher incomparável em graça e infinitamente em virtudes. Também acreditava o Padrinho Ciço, bem antes de ser promulgado, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora, e, consequentemente, como reza o quinto mistério glorioso, a “coroação da Mãe do Cristo como Rainha”. Quer dizer, chamar Maria de “Soberana” é acreditar que ela já vive agora na Eternidade.

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Nossa Senhora das Dores - Juazeiro do Norte/CE
Padre Cícero de uma forma bem humilde se coloca diante da Mãe de Cristo como um “filho e servo”. Ao se dispor com filiação significa afirmar que por ser um batizado e membro da Igreja, é bem mais significativo nunca se esquecer que mesmo sendo ministro ordenado, jamais deixou de ser filho da Igreja. Isto nos faz lembrar da passagem da Carta aos Hebreus no capítulo cinco, quando diz: “Todo sumo sacerdote é escolhido do meio do povo e constituído para representar este mesmo povo diante de Deus. Sua missão é oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele sabe ter compaixão dos que estão no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza”[10]. Nesta afirmação lembramos o grande Santo Agostinho que nunca se orgulhou de seu ministério colocado sempre a serviço dos necessitados. O Doutor da Graça certo dia afirmou: “Para vocês eu sou o Bispo, com vocês eu sou cristão”, recordando assim, que o ministro também necessita de salvação. Aqui, o padre do Juazeiro deixa resplandecer o seu lado devoto. Aquele que sempre está com as mãos estendidas para o céu, porque é de lá que vem o seu socorro. Também reconhece o padre, quão é necessário reclamar a maternidade de Maria e ao mesmo tempo declarar-se “servo” dela. Ser servo não por “idolatria”[11], mas por amor filial capaz de fazer morrer em si próprio suas vontades, para que o Reino de Deus chegue a todos, inclusive a quem lhe é dado por direito e dever: os pobres. São eles os “bem-aventurados”! Como dizia São Lourenço Mártir, “são os pobres o tesouro da Igreja”. Esta ideia de servidão estará plenamente fundamentada logo na introdução do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem de São Luís aqui já afirma: “Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que ele deve reinar no mundo”.[12]Este é o verdadeiro motivo que leva Padre Cícero olhar para a Mãe das Dores com total reserva, porque ela atrai a todos para Cristo, o único e suficiente Salvador do mundo.
Padre Cícero entrega a Nossa Senhora “sua família, seus trabalhos e haveres”, porque sabe que quando vier a faltar o vinho[13] da alegria, do amor, da graça de Deus e da unidade, a Mãe de Jesus pode vir em seu socorro, porque tudo a ela foi entregue, para que vele como uma guardiã diante de Deus e dos homens, bem como for necessário. Logo em seguida, conclui sua consagração dizendo: “Conduzi-me ao céu para viver por toda a eternidade”. Aqui encontramos a concepção mais centralizada da mariologia, quando apresenta qual finalidade tem a Virgem Maria na vida da Igreja. Sua missão é atrair e conduzir a todos para Cristo, pois é ele a verdadeira “Porta das ovelhas”[14], onde se pode entrar para viver na eternidade. A Mãe de Jesus não descansará enquanto não ver todos os seus filhos agasalhados na casa do Pai, nossa morada definitiva (Jo 14, 2).
Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl
(Membro da Academia Marial de Aparecida)
[1]             São Leão I é o primeiro Pontífice que apresenta um discurso elaborado em nome da Igreja após o Concílio de Éfeso de 431. Informações encontramos documentadas em: DOCTRINA PONTIFICIA IV: Documentos Marianos. Madrid: BAC, 1956.
[2]             Mt 19, 16-19.
[3]             Lc 1, 48; Ap 12, 1.
[4]             Lc 1, 29.
[5]             Lc 2, 51.
[6]             Lc 1, 41.
[7]             Jo 2, 5.
[8]             Lv 20, 7; I Pd 1, 15.
[9]             Theotokos é composta de duas palavras gregas, Θεός (Deus) e τόκος (parto). Literalmente, isso se traduz como portadora de Deus ou a que dá à luz Deus. O último título é composto de uma palavra distinta em grego, Μήτηρ του Θεού (transliterado Mētēr tou Theou). Outras palavras gregas poderiam ser usadas para descrever "Mãe de Deus", como Θεομήτωρ (transliterado Theomētor; também escrito Θεομήτηρ, transliterado como Theomētēr) e Μητρόθεος (transliterado Mētrotheos), que são encontradas em textos patrísticos e litúrgicos. As letras gregas ΜΡ e ΘΥ são abreviaturas utilizadas para os termos gregos de "Mãe de Deus", consistindo das letras inicial e final de cada palavra, a sua utilização é uma prática comum na iconografia ortodoxa para referir-se à Maria.
[10]             Cf. Hb 5, 1-2.
[11]            Idolatria tão condenada por Padre Cícero em suas lutas. Idolatria da ganância e do poder.
[12]             MONTFORT, São Luís Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 1949, p. 17.
[13]            Jo 2, 3.
[14]             Jo 10, 7.