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domingo

Reflexão para o mês vocacional



Deus chama...




O mês de Agosto é um tempo propício para a oração em favor das vocações, e, a Igreja em sua espiritualidade e mística reza e celebra de forma veemente a dimensão vocacional, na certeza de que Deus, Senhor e criador de todas as coisas, enviará colaboradores generosos para o serviço em sua Igreja e no mundo inteiro.
A missão da Igreja acontece graças aos operários, que pelo sopro do Espírito Santo, foram conduzidos a uma experiência profunda de se identificar de forma mais comprometida com a causa de Jesus e se deixaram conduzir pela graça que sustenta, anima e fortalece a vida dos escolhidos e chamados para a missão.
Todos somos vocacionados, primeiro porque Deus que é Pai e nos ama, enriqueceu-nos com tão grande Dom, a vida; Ele também nos convida para colaborar com a construção do seu Reino. Por isso nesse mês rezamos e pedimos ao Senhor da Messe que envie vocações sacerdotais, religiosas e laicais para que continuem a evangelização nos mais diversos lugares e níveis, onde encontram-se os fieis membros do Rebanho, povo de Deus, que a distância não participam da graça que o Divino Mestre quer para todos.
Na oração pelas vocações pedimos “ao Senhor da messe que envie operários”. Pois diante do tamanho e da exigência que tem a vinha do Senhor é necessário que rezemos para que surjam vocações generosas; e que iluminadas possam em sua capacidade responder a tantos desafios do mundo contemporâneo, que traz da pós-modernidade conflitos e situações, que só com a sabedoria oriunda de Deus, como experiênciou Salomão, para ajudar a tantos irmãos na vivencia dos valores cristãos, podem ser sinais da presença do amor de Deus.
O Senhor ainda continua chamando homens e mulheres para assumirem de forma radical o compromisso batismal, numa entrega total á aquele que é o Dono da messe. Mas devemos ser perseverantes na oração, tanto para os que serão chamados, como também para aqueles que há um tempo atrás responderam sim ao chamado e se colocaram a trilhar o caminho da vocação que Deus escolheu para cada filho que se sente chamado por Ele.
Portanto, Deus que é amor precisa ser comunicado a todos os confins da terra, e mais ainda, Ele precisa ser acolhido e amado. E essa tarefa cabe a todos que pela fé seguem a Jesus Cristo em seu projeto de amor, fraternidade, justiça, alegria e paz no Espírito Santo. Por isso em sentido de permanente vigília, continuemos em oração pelas vocações para que nunca faltem operários e a Messe não venha a perecer. Que Maria, Mãe do Salvador, interceda por essa e outras súplicas da Igreja, na certeza do advento do Reino de Deus na vida das pessoas e no mundo.

Autor: Diácono Denis Alves de Lima, crl

(Cônego Regular Lateranense)

sábado

Está Proibido cantar no gesto do abraço da paz no Santo Sacrifício da Missa por determinação do Papa Francisco

A Santa Sé por meio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou por ordem do Santo Padre Francisco um novo documento.

Neste documento a Santa Sé ordena que acabem com os abusos no momento da Paz, o popular "abraço da paz".

- Nada de sair do lugar para dar a paz, mas dar-se-á apenas para as pessoas que estão mais próximas.

- Nada de músicas, pois isso além de não estar previsto, aumenta bastante um momento que não deve ser longo.

- Nada de o celebrante sair do presbitério para dar a paz a outras pessoas.


CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
CARTA CIRCULAR: O SIGNIFICADO RITUAL DO DOM DA PAZ NA MISSA

1. "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz"[1], são as palavras com as quais Jesus promete aos discípulos reunidos no cenáculo, antes de enfrentar a paixão, o dom da paz, para infundir-lhes a gozosa certeza de sua presença permanente. Depois de sua ressurreição, o Senhor leva ao termo sua promessa apresentando-se no meio deles, no lugar em que se encontravam por temor aos Judeus, dizendo: "A paz esteja convosco!"[2]. A paz, fruto da Redenção que Cristo trouxe ao mundo com sua morte e ressurreição, é o dom que o Ressuscitado segue oferecendo hoje a sua Igreja, reunida para a celebração da Eucaristia, de modo que possa testemunhá-la na vida de cada dia.

2. Na tradição litúrgica romana o sinal da paz, colocado antes da Comunhão, tem um significado teológico próprio. Este encontra seu ponto de referência na contemplação eucarística do mistério pascal - diversamente de como fazem outras famílias litúrgicas que se inspiram na passagem evangélica de Mateus (cf. Mt 5, 23) - apresentando-se assim como o "beijo pascal" de Cristo ressuscitado presente no altar [3]. Os ritos que preparam a comunhão constituem um conjunto bem articulado dentro do qual cada elemento tem seu próprio significado e contribui ao sentido do conjunto da sequência ritual, que conduz à participação sacramental no mistério celebrado. O sinal da paz, portanto, se encontra entre o Pater noster - ao qual se une mediante o embolismo que prepara ao gesto da paz - e a fração do pão - durante a qual se implora ao Cordeiro de Deus que nos dê sua paz -. Com este gesto, que significa a paz, a comunhão e a caridade"[4], a Igreja implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana, e os fiéis expressam a comunhão eclesial e a mútua caridade, antes da comunhão sacramental"[5], isto é, a comunhão no Corpo de Cristo Senhor.

3. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis o papa Bento XVI havia confiado a esta Congregação a tarefa de considerar a problemática referente ao sinal da paz[6], com o fim de salvaguardar o valor sagrado da celebração eucarística e o sentido do mistério no mundo da Comunhão sacramental: "A Eucaristia é por sua natureza sacramento da paz. Esta dimensão do Mistério eucarístico se expressa na celebração litúrgica de maneira específica com o gesto da paz. Trata-se indubitavelmente de um sinal de grande valor (cf. Jo 14, 28). Em nosso tempo, tão cheio de conflitos, este gesto adquire, também a partir ponto de vista da sensibilidade comum, um relevo especial, já que a Igreja sente cada vez mais como tarefa própria pedir a Deus o dom da paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana. [...] Por isso se compreende a intensidade com que se vive frequentemente o rito da paz na celebração litúrgica. A este propósito, contudo, durante o Sínodo dos bispos se viu a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembléia precisamente antes da Comunhão. Seria bom recordar que o alto valor do gesto não fica diminuído pela sobriedade necessária para manter um clima adequado à celebração, limitando por exemplo a troca da paz aos mais próximos"[7].

4. O Papa Bento XVI, além de destacar o verdadeiro sentido do rito e do sinal da paz, punha em evidência seu grande valor como colaboração dos cristãos, para preencher,  mediante sua oração e testemunho, as angústias mais profundas e inquietantes da humanidade contemporânea. Por esta razão, renovava seu convite para cuidar este rito e para realizar este sinal litúrgico com sentido religioso e sobriedade.

5. O Discasterio, baseado pelas disposições do Papa Bento XVI, dirigiu-se às Conferências dos bispos em maio de 2008 pedindo seu parecer sobre se manter o sinal da paz antes da Comunhão, onde se encontra agora, ou se mudá-lo a outro momento, com o fim de melhorar a compreensão e o desenvolvimento de tal gesto. Traz uma profunda reflexão, se viu conveniente conservar na liturgia romana o rito da paz em seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano. Oferecem-se na continuação algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembléias litúrgica antes da Comunhão.

6. O tema tratado é importante. Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, em seus gestos rituais, o significado correto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia. Portanto, junto às precedentes reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese a respeito, para a qual se ofereceram algumas linhas orientativas, submete-se a prudente consideração das Conferências dos bispos algumas sugestões práticas:

a) Esclarece-se definitivamente que o rito da paz alcança já seu profundo significado com a oração e o oferecimento da paz no contexto da Eucaristia. O dar-se a paz corretamente entre os participantes na Missa enriquece seu significado e confere expressividade ao próprio rito. Portanto, é totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar "mecanicamente" para se dar a paz. Se se prevê que tal troca não se levará ao fim adequadamente por circunstâncias concretas, ou se retem pedagogicamente conveniente não realizá-lo em determinadas ocasiões, pode-se omitir, e inclusive, deve ser omitido. Recorda-se que a rúbrica do Missal disse: Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offerte vobis pacem"[8].

b) Baseado nas presentes reflexões, pode ser aconselhável que, com ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido em seu momento. Por exemplo, naqueles lugares em nos quais se optou por gesto familiares e profanos de saudação, traz a experiência destes anos, poderiam-se substituir por gestos mais apropriados.

c) De todos os modos, será necessário que no momento de dar-se a paz se evitem alguns abusos tais como:
- A introdução de um "canto para a paz", inexistente no Rito romano [9].
- Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz.
- Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis.
- Que em algumas circunstâncias, como a solenidade de Páscoa ou de Natal, ou Confirmação, o Matrimônio, as sagradas Ordens, as Profissões religiosas ou as Exequias, o dar-se a paz seja ocasião para felicitar ou expressar condolências entre os presentes[10].

d) Convida-se igualmente a todas as Conferências dos bispos a preparar catequeses litúrgicas sobre o significado do rito da paz na liturgia romana e sobre seu correto desenvolvimento na celebração da Santa Missa. A este propósito, a Congregação para o Culto Divino e a Disiciplina dos Sacramentos acompanha a presente carta com algumas pistas orientativas.

7. A íntima relação entre lex orandi e lex credendi deve obviamente estender-se a lex vivendi. Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que dele depende a qualidade de nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz[11].

8. Ao finalizar estas considerações, exorta-se aos bispos, e sob sua guia, aos sacerdotes a considerar e aprofundar no significado espiritual do rito da paz, tanto na celebração da Santa Missa como na própria formação litúrgica e espiritual ou na oportuna catequese aos fiéis. Cristo é nossa paz[12],a paz divina, anunciada pelos profetas e pelos anjos, e que Ele trouxe ao mundo com seu mistério pascal. Esta paz do Senhor Ressuscitado é invocada, anunciada e difundida nas celebração, também através de um gesto humano elevado ao âmbito sagrado.

O Santo Padre Francisco, no dia 7 de junho de 2014, aprovou e confirmou o que se contém nesta Carta circular, preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e ordenou sua publicação.
Na sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao dia 08 de junho de 2014, na solenidade de Pentecostes.

Antonio Card. CAÑIZARES LLOVERA
Prefeito

Arthur ROCHE
Arcebispo Secretário
NOTAS

[1]. Jo 14, 27
[2]. Cfr. Jo 20, 19-23.
[3]. Cf. MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum summorum pontificum cura recognitum, Editio typica, 1962, Ritus servandus, X, 3.
[4]. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 71: AAS 96 (2004) 571.
[5]. MISSALE ROMANUM, ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, auctoritate Pauli Pp. VI promulgatum, Ioannis Pauli Pp. II cura recognitum, editio typica tertiam, diei 20 aprilis 2000,Typis Vaticanis, reimpressio emendata 2008, Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82.
[6]. Cf. BENTO XVI, Exhort. Apost. pós-sinod., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49: AAS 99 (2007) 143
[7]. Cf. Bento XVI, Exhort. Apost., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49, nota n. 150: AAS 99 (2007) 143.
[8]. MISSALE ROMANUM, Ordo Missae, n. 128
[9]. No rito romano não está tradicionalmente previsto um canto para a paz porque se prevê um tempo brevíssimo para dar a paz somente aos mais perto. O canto da paz sugere, pelo contrário, um tempo muito largo para a troca da paz.
[10]. Cf. Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82: "Conveniente, contudo, que cada um expresse sobriamente a paz somente aos que tem mais próximo"; n. 154: "O sacerdote pode dar a paz aos ministros, permanecendo sempre dentro do presbitério, para não alterar a celebração. Faça-se do mesmo modo se, por uma causa razoável, deseja dar a paz a alguns fiéis"; CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., Redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 72: AAS 96 (2004) 572.
[11]. Cf. Mt 5, 9ss.
[12]. Ef. 2, 14.

FONTE





domingo

A ESPIRITUALIDADE DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA POR UM CÔNEGO REGULAR

Contexto Histórico e Teológico do tempo de Santo Agostinho

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste (Numídia) no dia 13 de novembro de 354, primeiro filho de um funcionário municipal, Patrício, e de Santa Mônica. É ele o último padre da Patrística e o primeiro da Idade Média. Nos estudos, Agostinho cursou primeiramente em sua terra natal (Tagaste) continuando em Madaura e posteriormente em Cartago. Em 372 teve um filho chamado Adeonato com uma jovem que desconhecemos o nome. Foi professor de retórica em Cartago e depois em Roma, e, por indicação do prefeito de Roma, Símaco, Obteve a cátedra oficial de mestre em Retórica e Milão. De 375 a 383 já o inquietavam agora fortes dúvidas sobre a verdade do maniqueísmo após ser ouvinte destes.
Estando em Milão, travou conhecimento com o neoplatonismo. Ao mesmo tempo ouvia regularmente os sermões de Santo Ambrosio, onde percebia um catolicismo mais sublime do que o imaginado. Ambrosio ajudou Agostinho na compreensão do neoplatonismo em comparação com o cristianismo em suas similaridades[1]. Fez-se batizar no sábado santo de 387, com seu filho e alguns de seus amigos por Ambrósio. Pouco tempo depois tornou-se presbítero e por fim, bispo de Hipona.
Nascido no século IV, Agostinho faz parte da geração que sucedeu ao fim das perseguições e o acesso da Igreja à liberdade plena. É uma época marcada por grandes heresias, como o arianismo e suas sequelas que provocaram os primeiros concílios, Niceia em 325 e Constantinopla em 381, e suas confissões de fé. Em 410, o mundo romano perplexo, toma conhecimento da tomada de Roma por Alarico e da pilhagem da Cidade Eterna por seus comparsas[2]. Esse acontecimento trágico provoca a fuga de muitos romanos para África ocasionando ataque dos pagãos contra a religião cristã: se Roma caiu, foi porque abandonou seus deuses pelo cristianismo. Para refutar essas acusações, Agostinho vai escrever sua grande obra, De Civitate Dei, que extrapolando seu objeto principal, traça um quadro de toda a história humana disposta em torno do Antagonismo entre duas cidades, a Cidade de Deus movida pelo amor de Deus até o desprezo de si, e a cidade terrestre, guiada pelo amor de si até o desprezo de Deus. Em 396 Santo Agostinho sucede a São Valério na Sé de Hipona. Ele se encarrega imediatamente da luta contra os donatistas que começou em Catergo no início do século com Donato. Em 411 Agostinho começa a luta com os pelagianos, a qual se dedicará em combatê-los até o fim de sua vida.


Contextualização da Espiritualidade de Santo Agostinho



No plano espiritual, o século IV também conhecerá uma transformação importante da qual fará parte Santo Agostinho. Os historiadores mostraram como a espiritualidade monástica substituiu o ideal do martírio, como uma reprodução da Paixão do Cristo e de seu belo testemunho diante de Pilatos. Talvez tenha sido menos enfatizada a passagem do qual Agostinho será o principal artesão no Ocidente. É possível constatar essa mudança ao comparar a interpretação das beatitudes de santo Ambrósio e de santo Agostinho. Para o bispo de Milão, as beatitudes representam os oito graus do avanço progressivo da vida cristã, desde a humildade até a coroa do mártir. Aqui explica-se o surgimento do ideal da sabedoria que substituirá o do martírio, que não poderá mais desempenhar o mesmo papel na Igreja após o término das perseguições. Mas ele se fixará e se desenvolverá apenas na humilde meditação das Escrituras cristãs, especialmente as epístolas de São Paulo, como a primeira aos Coríntios, que revela aos humildes a sabedoria de Deus oculta aos sábios deste mundo. A vida de Santo Agostinho será uma busca pela sabedoria. Sua explicação das beatitudes já nos revela o espírito que acompanhará suas grandes obras.
Podemos dizer muito limitadamente sobre a espiritualidade agostiniana que é um método que liga a Deus pela via da meditação, silêncio, ouvir o coração e ouvir-se. É um caminho que proporciona um voltar para dentro de si mesmo, buscando da Verdade para que, encontrando-a permaneça nela[3].
A experiência espiritual proposta por Santo Agostinho pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade, de Deus; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos. Quer dizer, a busca de Deus, para Agostinho, identifica-se busca da Verdade. Mas não diz respeito somente a quem busca verdades sobre as coisas boas, ou a quem ainda não tem fé, nem a quem ainda não encontrou em Cristo a verdade de sua existência. Também não se trata unicamente de atividade do pensamento, como mera atividade filosófica, mas trata-se de uma atitude de fé em constante busca de Deus; é uma realidade existencial; envolve mente e coração; o ser em sua totalidade em empenho constante de busca.
Devemos olhar este método de busca proposto pelo Doutor da Graça e perguntar: Mas como buscar e onde encontrar Deus? Pela via da interioridade, diz Agostinho, mediante a contemplação. A interioridade é, então, um movimento para dentro de si mesmo, não para exercitar o movimento dos próprios pensamentos, mas para ouvir-se, ver-se e, ao se encontrar a própria mutabilidade, sair de si mesmo para ascender à luz de sua razão, aquele que a ilumina e lhe fala na consciência[4].
O exercício da interioridade agostiniana é, então, em seu processo de busca, libertação da escravidão das coisas(do materialismo e do hedonismo), para encontrar a Verdade e viver em conformidade com a mesma. É oração e contemplação; um modo novo de colocar-se diante do Absoluto, de si mesmo e das coisas; via de esperança que Agostinho aponta para o homem de hoje: ''é melhor ter menos necessidades que possuir mais coisas'' (Regra 3,18).
"Não saias fora de ti, volta-te a ti mesmo; a verdade habita no homem interior, e, ao dar-te conta de que tua natureza é mutável, transcende a ti mesmo... Busca, então, chegar lá onde a própria lâmpada da razão recebe luz'' (A verdadeira religião 72)[5].
            O desenvolvimento espiritual de Agostinho está relatado em suas Confissões; é um itinerário desde os afetos desordenados até a ordem do amor, em que se chega a Deus, não primordialmente por meio das práticas ascéticas, nem por uma ascensão intelectual, mas por um amor humano, voluntário e afetivo, unificado pelo Espírito Santo que se converte em caridade. Em sua espiritualidade existem aspectos individuais, sociais e institucionais. É uma visão cristã da vida a que uma pessoa se compromete por meio das ações. Seu fundamento se encontra na fé em que as pessoas humanas são amadas por Deus Pai, enquanto ele ama a seu Filho. Esta verdade, uma vez experimentada, abre o coração para uma íntima comunhão com Deus na oração e logo no culto litúrgico na comunidade eclesial com a preocupação dessa daqui por todos. A verdade do amor a Deus por cada ser humano é revelada por meio dos atos da criação e da encarnação do Filho, efetuada por Deus Uno e Trino para redimir e santificar a todos. Assim que, para Santo Agostinho, a espiritualidade denota da vida no Espírito Santo, há qual faz com que as pessoas humana sejam semelhantes a Cristo, dando-lhes a caridade, que lhes permite rezar exclamando “Abba, Pai!” (Rm 8, 15). Então, a união com Cristo, em quem um se converte em filho do Pai, não por natureza, senão por graça, é para Agostinho a realidade básica da oração e da vida cristã. Isto origina uma continuada conversão para identificar-se mais e mais com Cristo[6].

Conclusão

          
  É bem verdade que ao tentar falar de uma espiritualidade em Santo Agostinho, devemos ter cuidado para não fugir da sistematização que ele propõe, porque são vastos os materiais que temos para isto, dentre eles, é bom lembrarmos, que não existem uma concordância em tudo o que afirmam ser de fato, uma espiritualidade eminentemente agostiniana. Mas, procurei aqui olhar para Agostinho como aquele que propõe uma espiritualidade que não é intimista ou egoísta, quando se fala de interioridade, mas deve ser entendida como um projeto de vida em comunhão na qual o ser humano é convidado a sentir-se solidário com o outro, sinta a solidariedade do outro, e, sinta-se participante de uma mesma dignidade, apesar das diferenças pessoais; comunhão em que as pessoas se aceitam reciprocamente e se querem bem assim como são, sem prejuízos ou preconceitos. Agora, claro, todos com os corações voltados para Deus.
            Pois, é nessa proposta agostiniana, onde encontramos as maiores contradições com a vida moderna. A vida em comunidade contrapõe ao individualismo, à intolerância, ao preconceito nas suas mais variadas faces. A vida em comunidade tem a sua tradução no mundo de hoje quando nos preocupamos de forma incondicional com o bem estar do outro e do mundo, pois sem o outro e sem a natureza ninguém pode sobre-viver, não podemos viver sobre e as custas do outro mais sim, por e com o outro, que é meu semelhante, digno do mesmo respeito e direitos. E esse ambiente, de respeito mutuo, só é possível para Agostinho com a vivência de um outro grande valor agostiniano: a amizade que não foge de sua espiritualidade. Com isto, podemos concluir que a experiência espiritual proposta por Santo Agostinho pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade, de Deus; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos, como já vimos no decorrer da leitura.

José Wilson Fabrício da Silva, crl
(Cônego Regular Lateranense)



[1] MADRID, Tteodoro C, La Iglesia católica según San Agustín, Madrid, Revista Agustiniana, 1994. Pág. 292.
[2] PINCKAERS, Servais, Em busca de Deus nas Confissões: passeando com Santo Agostinho, São Paulo, Loyola, 2013. Pág. 24.
[3] AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona,  Confissões: livro X, n. 38., São Paulo, Paulus, 2002. Pág. 299.
[4] TONNA-BARTHET, Pe. Antonino, Síntese da Espiritualidade Agostiniana, São Paulo, Paulus, 1995. Pág. 33.
[5] http://www.osabrasil.org/interioridade_carisma.htm    Acesso em 19/06/2014 às 14:17.
[6] DICCIONARIO de San Agustin: San Agustin a través del tiempo, Burgos, Monte Carmelo, 2006. Pág. 514.

quarta-feira

Pastoral da Liturgia

Dicas para uma Pastoral Litúrgica eficiente em sua comunidade


  1. Cuidar a Liturgia

            Diz-se que quem ama cuida. É verdade! E quem não ama, não cuida. Isto também é verdade!
            Cuidar no sentido de preocupar-se com, interessar-se por, dar atenção à, envolver-se com, estar atento por, tirar tempo com. O cuidado e cuidador são expressões por demais valorizadas pela pós-modernidade. Quem recebe o encargo de cuidar de alguém ou algum valor, torna-se confiável de quem se confiou. Nesta lógica, quem confiou, tornou-seu fiador a quem fiou.
            A Igreja confia aos fiéis o cuidado do “Mistério da Fé”[1], visível na liturgia. E, em se tratando de liturgia, o cuidado é dobrado pois, quem cuida da celebração, cuida da ação ritual e das pessoas que a constituem.
            Particularmente, a partir do no ano da fé que celebramos no pontificado do papa Bento XVI, a liturgia precisa de um olhar especial, demorado, cuidadoso, amoroso, pois nela os fiéis fazem a experiência de se configurar ao seu Senhor e dele aprenderem a viver “os seus sentimentos”(Fl 2,5).

  1. Cuidar de quem?

1º. Cuide da assembleia reunida – por ela a Igreja se edifica![2]
  • Que as pessoas sejam acolhidas e ternamente envolvidas. Mas se a acolhida é dispersiva, não contribui e multiplica os ruídos. Bom seria que antes de toda celebração do santo Sacrifício da Missa, a comunidade reunida se preparasse com a reza do santo rosário, um momento de adoração a Jesus e um silêncio profundo, meditando nos santos mistérios que vão ser celebrados.
  • Que as pessoas sejam respeitadas, no quanto conseguem acompanhar, de tudo o que são convidadas a participar. Ex: Hinos conhecidos, ensino doutrinal e bíblico claros, som nítido e equilibrado do templo, iluminação eficiente, etc.
  • Que as pessoas sejam introduzidas no Mistério. Quem veio, veio para rezar. Então colabore para que haja ambiente de silêncio e oração. E se alguém, ao seu lado, puxar assunto, diga-lhe, pelo olhar, que ali não é o lugar. Que nas celebrações sejam evitados os comentários, se houver, que seja brevíssimo e sem caráter de homilia.

2º. Cuide do presbítero que preside – por ele o próprio Senhor preside![3]
  • Permita-lhe que se concentre, se prepare, silencie. Não é hora de lhe dar informações e de pedir informações. Não é ele quem deve decidir o que fazer se os cantores não vieram ou se os leitores faltaram. Ou se “pode isso ou se pode aquilo”. Se não houve preparação, assim, aconteça a ação.
  • Permita-lhe que, às vezes, fique zangado com o zumbido da “colméia” que o rodeia.
  • Relembrem a equipe que vai auxiliar no santo Sacrifício da Missa que depois de mesa posta não se briga nela.
  • Permita-lhe o sagrado silêncio que o lugar exige. Várias igrejas foram construídas com duas sacristias: uma, ao padre, que, antes, deve centrar-se no Mistério, a outra, a outros fins. Hoje, em alguns lugares, uma virou almoxarifado, outra um enxame de abelhas. Dica: Que cada sacristia tenha um crucifixo digno e uma mesa devidamente preparada com os paramentos do sacerdote. O crucifixo para que o sacerdote reze pedindo antes da missa, perdão por seus pecados e pelos pecados de todos.





3º Cuide dos leitores – por eles é o próprio Senhor quem fala![4]

·         Mostre-lhes que a leitura do folheto é a mesma que está no Lecionário[5] e que no momento da leitura, deve-se ler do Livro, pois ele na liturgia é simbólico. Por quê? É simples a resposta: o Livro do Lecionário está presente em todas as celebrações durante todo o ano litúrgico. Já o tal “folheto” é descartável. Isto é uma lástima, pois é a palavra de Deus que é descartada, assim que termina a missa. O primeiro assim que termina a missa vai do ambão para a sacristia[6] e volta na próxima missa, volta sempre novo, de novo; o segundo, vai para o lixo e não volta mais.
·         Não basta dizer, faça-lhes ver e ler as leituras antes do santo Sacrifício da Missa! É necessária uma devida preparação do leitor, pra que respeite a pontuação, o tempo e os gestos antes e depois de cada leitura. Atenção! Uma Leitura bem feita dá gosto de ouvir.
·         Mostre-lhes o leve movimento do microfone, para cima e para baixo, se necessário. Um se ajuste ao outro, mas com calma.
·         Mostre-lhes o texto ao leitor, antes, para que, depois, não haja pretexto.

3.Cuidar do que? Pelos sinais a comunidade se constrói!(cf. Lc 24, 13-35).

  • Compor a credência com os vasos sagrados é tarefa dos ministros da comunhão e dos coroinhas. Não havendo nenhum deles, uma pessoa idônea, o fará.
  • Prepare o presbitério com a cátedra para o sacerdote e cadeiras ladeadas para os diáconos (dois), caso os tenham. Logo em seguida, as cadeiras para os acólitos. ATENÇÃO! Leitores sem o ministério instituído pela Igreja, os ministros extraordinários da comunhão eucarística devem ficar na assembleia, juntamente com os irmãos fiéis. O presbitério é próprio do presbítero! O ministro só deve subir ao presbitério na hora de exercer sua função que é rápida e discreta.
Prepare o altar com toalha branca. Entendamos essa questão: Sabemos que as toalhas no altar eram usadas desde a Antiguidade, ininterruptamente. Inclusive, ela é encontrada em todos os Ritos da Igreja e, não apenas, no Rito Romano. Inclusive, o Missale Romanum de 1962 (Rubricae generales Missalis Romani XI, 526), ordenava que se deveria haver três toalhas sobre o altar, e com um decreto (de número 4029) a Sagrada Congregação Para os Ritos explicitou como e quais:

1.    A que tocava a mesa feita de cânhamo e cobrindo todo o tampo do altar;
2.    Uma de linho acima da de cânhamo, igualmente apenas sobre o tampo do altar;
3.    Uma terceira, verdadeiramente a toalha, que vai por cima das duas outras e, de maneira geral, cai pelas laterais do altar tocando o solo.
Porém, todas elas devem ser, obrigatoriamente, de cor branca. Há várias explicações para isso, uma delas é de que denota não apenas asseio, mas também porque o sacrário estava sobre o Altar e a cor do Santíssimo Sacramento, e a Ele associada, é a branca.
Porém, o que diz a rubrica da Instrução Geral do Missal Romano, após o Concílio Vaticano II? O número 304 nos diz:
“(…) O altar sobre o qual se celebra deve ser coberto ao menos com uma toalha de cor branca, que, pela sua forma, tamanho e ornato, deve estar em hamonia a estrutura do altar”




3º. Cuide da coleta na missa

  • Quando há procissão, duas pessoas disponham o “recipiente”, no corredor, à frente do altar, e, em seguida, o deponham “aos pés do altar”, feito de tal modo que transpareça a ação da partilha e não a dos pedintes;
  • Se a coleta for de mão em mão, duas pessoas entreguem aos primeiros dos primeiros lugares. Recordo-lhes que o gesto será diferenciado se os primeiros à frente derem o exemplo. Após, deponham “aos pés do altar”.
  • Ao final da missa, confiram e anotem o resultado. Em coletas especiais e obrigatórias, no domingo seguinte, agradeça a colaboração e divulgue o resultado, repetindo a destinação.

  1. Cuidar é próprio de quem ama – Pelo testemunho os reconhecerão!(Cf. Jo 13,1-11)

            Então, mãos à Obra.[7] Sem jogo de empurra-empurra. Ao convidar a todos, dizendo a todos que todos são responsáveis não atinge ninguém. Um espera pelo outro, que espera pelo outro, e ambos esperam que outros tenham ido e no fim nenhum foi. Como a liturgia é feita com pessoas, proponho uma forma:

1º. O padre comece por convidar para uma reunião, 3 a 5 pessoas, entre os já ajudam na liturgia.
  • Tomem juntos um “bom café” e depois façam uma lista com nomes de pessoas que aceitem o desafio de cuidarem das celebrações, “preparando as pessoas, os lugares, os textos e os ritos”.[8]

2º. O padre diga que sentido da reunião em maior número, não é somente para distribuir funções na missa. Mas para rezar juntos, estudar juntos, ensaiar juntos e, depois da oração e dos ensaios, tomarem “um café-com-leite mais reforçado” juntos.

3º. Quem ama, cuida a Obra, quem não ama não se importa e, cuida de si
Quem ama encontra tempo, retira o carro da garagem ou arruma carona, e participa, faz parte “da lista”. Quem ama não deixa que só “a fulana e o fulano” carreguem o peso sozinho. Quem ama dá um jeito e ajeita. Que não ama arruma desculpa e se justifica, lava as mãos. Quem ama, encara o desafio com fé, e ajuda a convencer a si e a outros que ajudar é a melhor maneira de amar.

Pe. Enio José Rigo
José Wilson Fabrício da Silva, crl


Para Conversar:

            Retomemos as perguntas:

            Como entendemos o “Cuidar a Liturgia”?
            Na celebração “Cuidar de quem”? “Cuidar do que”?
            Para que tenhamos um “bom cuidado da liturgia”, o que se faz necessário?



[1] Aclamação Memorial, feita pelo presidente da celebração,diante da assembleia, lembrando as palavras de Paulo em 1Cor 11,26.
[2] Carta Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, cap, II
[3] Sacrosanctum Concilium, n. 7. Falando sobre a presidência do ministro ordenado, citando a Instrução Geral do Missal Romano, n. 92-95,  diz o “Guia Litúrgico Pastoral” da CNBB, p. 93, que este ministério “situa-se no horizonte da unidade, da animação, da coordenação e da presidência da comunidade e das ações litúrgicas”.
[4] Idem, n.7.
[5] Livro que contém todos os textos bíblicos para a Celebração da Eucaristia. Constitui-se pela sequência do ano litúrgico A (Mateus); B (Marcos) e C(Lucas). 2013 é o ano C.
[6] “A sacristia faz parte do templo, por isso seja harmoniosa e bem arrumada. Ela é lugar do respeito, do silêncio, da concentração de quem preside, ministros(as), coroinhas e demais participantes da equipe da celebração. O objetivo da sacristia é favorecer sempre a harmonia e a acolhida”. CNBB. Guia Litúrgico Pastoral, p.114.
[7] Trata-se da Obra da Salvação, prenunciada por Deus, realizada em Cristo. (cf. SC n. 5).
[8] Missal Romano, n. 1.