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quarta-feira

A ESPIRITUALIDADE DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

A ESPIRITUALIDADE DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

Contexto Histórico e Teológico do tempo de Santo Agostinho

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste (Numídia) no dia 13 de novembro de 354, primeiro filho de um funcionário municipal, Patrício, e de Santa Mônica. É ele o último padre da Patrística e o primeiro da Idade Média. Nos estudos, Agostinho cursou primeiramente em sua terra natal (Tagaste) continuando em Madaura e posteriormente em Cartago. Em 372 teve um filho chamado Adeonato com uma jovem que desconhecemos o nome nos registros, mas alguns historiadores afirmam que se chamava de Melânea. Foi professor de retórica em Cartago e depois em Roma, e, por indicação do prefeito romano, Símaco, Obteve a cátedra oficial de mestre em Retórica em Milão. De 375 a 383 já o inquietavam agora fortes dúvidas sobre a verdade do maniqueísmo após ser ouvinte destes.

Estando em Milão, travou conhecimento com o neoplatonismo. Ao mesmo tempo ouvia regularmente os sermões de Santo Ambrósio, onde percebia um catolicismo mais sublime do que o imaginado. Ambrósio ajudou Agostinho na compreensão do neoplatonismo em comparação com o cristianismo em suas similaridades[1]. Fez-se batizar no sábado santo de 387, com seu filho e alguns de seus amigos por Ambrósio. Pouco tempo depois tornou-se presbítero e por fim, bispo de Hipona.

Nascido no século IV, Agostinho faz parte da geração que sucedeu ao fim das perseguições e o acesso da Igreja à liberdade plena. É uma época marcada por grandes heresias, como o arianismo e suas sequelas que provocaram os primeiros Concílios, Niceia em 325 e Constantinopla em 381, e suas confissões de fé. Em 410, o mundo romano perplexo, toma conhecimento da tomada de Roma por Alarico e da pilhagem da Cidade Eterna por seus comparsas[2]. Esse acontecimento trágico provoca a fuga de muitos romanos para África ocasionando ataque dos pagãos contra a religião cristã: “se Roma caiu, foi porque abandonou seus deuses pelo cristianismo”. Para refutar essas acusações, Agostinho vai escrever sua grande obra, De Civitate Dei, que extrapolando seu objeto principal, traça um quadro de toda a história humana disposta em torno do antagonismo entre duas cidades, a Cidade de Deus movida pelo amor de Deus até o desprezo de si, e a cidade terrestre, guiada pelo amor de si até o desprezo de Deus. Em 396 Agostinho sucede a São Valério na Sé de Hipona. Ele se encarrega imediatamente da luta contra os donatistas que começou em Catargo no início dos anos 400 com Donato. Em 411 Agostinho, novamente, por amor a Igreja fundada por Jesus e entregue a Pedro, retoma a luta com os pelagianos, a qual se dedicará em combatê-los até o fim de sua vida.

Contextualização da Espiritualidade de Santo Agostinho

No campo espiritual, o século IV também conhecerá uma transformação importante da qual fará parte Santo Agostinho. Os historiadores mostraram como a espiritualidade monástica substituiu o ideal do martírio[1]. Talvez tenha sido menos enfatizada a passagem do qual Agostinho será o principal artesão no Ocidente. É possível constatar essa mudança ao comparar a interpretação das beatitudes de Santo Ambrósio e de Santo Agostinho. Para o bispo de Milão, as beatitudes representam os oito graus do avanço progressivo da vida cristã, desde a humildade até a coroa do martírio. Aqui explica-se o surgimento do ideal da sabedoria que substituirá o do martírio, que não poderá mais desempenhar o mesmo papel na Igreja, após o término das perseguições. Mas ele se fixará e se desenvolverá apenas na humilde meditação das Escrituras cristãs, especialmente as epístolas de São Paulo, como a primeira aos Coríntios, que revela aos humildes a sabedoria de Deus oculta aos sábios deste mundo. A vida de Santo Agostinho será uma busca pela sabedoria. Sua explicação das beatitudes já nos revela o espírito que acompanhará suas grandes obras.

Podemos dizer sobre a espiritualidade agostiniana que é um método que liga a Deus pela via da meditação, silêncio, ouvir o coração e ouvir-se; logo em seguida, colocar o que foi meditado em prática por meio do trabalho. É um caminho que proporciona um voltar para dentro de si mesmo, buscando da Verdade para que, encontrando-a permaneça nela[3].

A experiência espiritual proposta por Santo Agostinho pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade – de Deus; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos. Quer dizer, a busca de Deus, para Agostinho, identifica-se com a busca da Verdade. Mas não diz respeito somente a quem busca verdades sobre as coisas boas, ou a quem ainda não tem fé, nem a quem ainda não encontrou em Cristo a verdade de sua existência. Também não se trata unicamente de atividade do pensamento, como mera atividade filosófica, mas trata-se de uma atitude de fé em constante busca de Deus; é uma realidade existencial; envolve mente e coração; o ser em sua totalidade em empenho constante de busca. É adquirir uma estreita relação com a Palavra de Deus, uma intensa vida de oração, buscar dignificar a liturgia e celebrá-la bem como um lugar da manifestação de Deus.

Devemos olhar este método de busca proposto pelo Doutor da Graça e perguntar: Mas como buscar e onde encontrar Deus? Pela via da interioridade, diz Agostinho, mediante a contemplação. A interioridade é, então, um movimento para dentro de si mesmo, não para exercitar o movimento dos próprios pensamentos, mas para ouvir-se, ver-se e, ao se encontrar a própria mutabilidade, sair de si mesmo para ascender à luz de sua razão, aquele que a ilumina e lhe fala na consciência[4]. É praticar um exercício bem simples e disciplinar que norteia toda a vida: ouvir mais, falar menos e se colocar a caminho das necessidades da Igreja.

O exercício da interioridade agostiniana é, então, em seu processo de busca, libertação da escravidão das coisas (do materialismo e do hedonismo), para encontrar a Verdade e viver em conformidade com a mesma. É oração e contemplação; um modo novo de colocar-se diante do Absoluto, de si mesmo e das coisas; via de esperança que Agostinho aponta para o homem de hoje: “é melhor ter menos necessidades que possuir mais coisas” (Regra 3,18).

"Não saias fora de ti, volta-te a ti mesmo; a verdade habita no homem interior, e, ao dar-te conta de que tua natureza é mutável, transcende a ti mesmo... Busca, então, chegar lá onde a própria lâmpada da razão recebe luz'' (A verdadeira religião 72) [5].

O desenvolvimento espiritual de Agostinho está relatado em suas Confissões; é um itinerário desde os afetos desordenados até a ordem do amor, em que se chega a Deus, não primordialmente por meio das práticas ascéticas, nem por uma ascensão intelectual, mas por um amor humano, voluntário e afetivo, unificado pelo Espírito Santo que se converte em caridade: Ora et Labora que São Bento adotou quase dois séculos depois em sua Regra. Em sua espiritualidade existem aspectos individuais, sociais e institucionais. É uma visão cristã da vida a que uma pessoa se compromete por meio das ações. Seu fundamento se encontra na fé em que as pessoas humanas são amadas por Deus Pai, enquanto ele ama a seu Filho. Esta verdade, uma vez experimentada, abre o coração para uma íntima comunhão com Deus na oração, e, logo, no culto litúrgico na comunidade eclesial. A verdade do amor a Deus por cada ser humano é revelada por meio dos atos da criação e da encarnação do Filho, efetuada por Deus Uno e Trino para redimir e santificar a todos. Assim que, para Santo Agostinho, a espiritualidade denota da vida no Espírito Santo, há qual faz com que as pessoa humana seja semelhante a Cristo, dando-lhe a caridade, que lhes permite rezar exclamando “Abba, Pai!” (Rm 8, 15). Então, a união com Cristo, em quem um se converte em filho do Pai, não por natureza, senão por graça, é para Agostinho a realidade básica da oração e da vida cristã. Isto origina uma continuada conversão para identificar-se mais e mais com Cristo[6].



Conclusão

É bem verdade que ao tentar falar de uma espiritualidade em Santo Agostinho, devemos ter cuidado para não fugir da sistematização que ele propõe, porque são vastos os meios que temos para isto, dentre eles, é bom lembrarmos, que não existe uma concordância em tudo o que afirma ser de fato, uma espiritualidade eminentemente agostiniana. Mas, procurei aqui olhar para Agostinho como aquele que propõe um caminho espiritual que não é intimista ou egoísta, quando se fala de interioridade, mas deve ser entendido como um projeto de vida em comunhão, na qual o ser humano é convidado a sentir-se solidário com o outro, sinta a solidariedade do outro, e, sinta-se participante de uma mesma dignidade, apesar das diferenças pessoais; comunhão em que as pessoas se aceitam reciprocamente e se queiram bem assim como são, sem prejuízos ou preconceitos. Agora, claro, todos com os corações voltados para Deus. Pois, é nessa proposta agostiniana, onde encontramos as maiores contradições com a vida moderna.

A vida em comunidade contrapõe ao individualismo, à intolerância, ao preconceito nas suas mais variadas faces. A vida em comunidade tem a sua tradução no mundo de hoje quando nos preocupamos de forma incondicional com o bem-estar do outro e do mundo, pois sem o outro e sem a natureza ninguém pode sobreviver, não podemos viver sobre e as custas do outro, mais sim, por e com o outro, que é meu semelhante, digno do mesmo respeito e direitos. E este ambiente, de respeito mútuo, só é possível para Agostinho com a vivência de um outro grande valor agostiniano: a amizade que não foge de sua espiritualidade. Com isto, podemos concluir que a experiência espiritual proposta pelo Bispo de Hipona pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos, como já vimos no decorrer da leitura.

JWFS, crl
Publicado em: 07/06/2014


[1] MADRID, Teodoro C, La Iglesia católica según San Agustín, Madrid, Revista Agustiniana, 1994. Pág. 292.
[2] PINCKAERS, Servais, Em busca de Deus nas Confissões: passeando com Santo Agostinho, São Paulo, Loyola, 2013. Pág. 24.
[3] AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona, Confissões: livro X, n. 38. São Paulo, Paulus, 2002. Pág. 299.
[4] TONNA-BARTHET, Pe. Antonino, Síntese da Espiritualidade Agostiniana, São Paulo, Paulus, 1995. Pág. 33.
[5] http://www.osabrasil.org/interioridade_carisma.htm    Acesso em 19/06/2014 às 14:17.
[6] DICCIONARIO de San Agustin: San Agustin a través del tiempo, Burgos, Monte Carmelo, 2006. Pág. 514.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL I

Quando se fala de Santo Agostinho, principalmente entre os seguidores de sua Regra, perguntam-se entre si, como se define a espiritualidade canonical, como a espiritualidade beneditina, franciscana, secular, caritativos e etc.

Se verdadeiramente conhece-se profundamente o pensamento agostiniano, suas obras e as consequências de seus ensinamentos na História da Vida Religiosa e da Teológica na Igreja, compreender-se-á a Espiritualidade de Santo Agostinho. Pois, definimos o Carisma Canonical como um caminho comunitário que se faz pela busca de um conhecimento profundo de cada pessoa, trabalhando toda a sua interioridade na Escola do Evangelho, para que, consequentemente, obter um conhecimento pleno de Deus.

Então, o caminho espiritual canonical foi construído por Santo Agostinho e fundamentado na Verdade que é o próprio Cristo Jesus. Tendo o conhecimento de si, sirva a Ele com mais amor, intimidade, com segurança para com a suas Obras. Para melhor traduzir esta busca de Deus e este conhecimento do homem, o grande cônego regular Tomas de Kempis traduziu este caminho em um famoso livro chamado de Imitação de Cristo. Numa época de mundanização, o remédio mais eficaz que ele encontrou foi olhar para a riqueza espiritual que a Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho tinha e tentar traduzir para os religiosos por meio da meditação pudesse ter acesso, com uma roupagem nova: imitar a Cristo, evitar que a febre pela busca do conhecimento humanista ateu e o existencialismo racionalista contaminasse as casas religiosas. Sendo assim, Tomas, olhando para Santo Agostinho, defende e difunde uma espiritualidade cristocêntrica, que propunha a ruptura com o mundo e a conversão a Deus.

A humildade do cônego Tomas foi perceptível por toda a Igreja. Apesar da popularidade de seu livro Imitação de Cristo, não se tinha conhecimento de quem o escrevera, de seu autor. Não é de se admirar, pois no Capítulo II lê-se: “estima ser ignorado e tido em nenhuma conta” ou no original em latim: “ama nesciri et pro nihilo reputari”. O Capítulo V adverte os leitores a não procurar quem disse, mas a prestarem atenção ao que foi dito: “non quaeras quis hoc dixerit: sed quid dicatur atende”, ou seja, não importa quem escreveu “A Imitação de Cristo”, mas tão somente a sua mensagem.

O contexto histórico da contribuição dos cônegos na Igreja com sua espiritualidade

Kempis estava localizada na região da fronteira com a Bélgica e a Alemanha atuais, na área de cultura conhecida como flamenga, ou seja, holandesa. Naquela área surgiu o movimento denominado devotio moderna para contrapor a devotio antiqua em voga. A devotio antiqua era praticada por um clero decadente, o qual não punha mais o próprio coração nas celebrações litúrgicas e nas práticas devocionais. Lembrando que se trata do século XV, pouco antes da Revolução Protestante. Além disso, apresentava uma mística intelectualizada, mais preocupada com questões abstratas que com as dificuldades cotidianas. Ela era praticada sobretudo na região do Rio Reno e seu representante mais ilustre foi o dominicano Mestre Eckhart, mais tarde acusado como herege e que teve parte de seus escritos condenados. Por fim, ela apresentava uma ascese inalcançável. As pessoas se propunham penitências dificílimas, iam em busca de heroísmo ascéticos tão terríveis que se tornava impossível cumpri-las.

Nesse cenário, surgiu a devotio moderna propondo que sacerdotes e religiosos empenhassem o coração no culto a Deus, saindo do automatismo. Para fugir da intelectualidade exacerbada, centralizaram a devoção em Cristo. Ela rapidamente se tornou popular, pois, além de cristocêntrica, oferecia a todos práticas de penitência e de mortificação mais acessíveis. Tomas ao escrever este livro para a sua comunidade canonical, procurou colocar o fiel em contato com Cristo, ajudando-o em seu processo de conversão, o qual exige uma ruptura com o mundo. Justamente nesse ponto a obra é criticada, pois a separação do mundo que ele sugere faz com que seja tachado de individualista, ou seja, com uma espiritualidade desencarnada, fora do mundo real, mas na verdade não é nada disso. Tomas chamava a sua comunidade para a essência da vida religiosa, a tal ponto que este livro ultrapassou as paredes do mosteiro, chegando a todas as partes do mundo católico.

Hoje, revisitando a história e o tesouro da riqueza espiritual que está sobre os ombros da Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, percebe-se que para viver o carisma canonical, basta primeiro ser uma pessoa amante pela Verdade que é Jesus Cristo, depois, desejar imitá-lo em sua apostolicidade, seguindo o sistema adotado pelo Bispo de Hipona.

Sempre olhar para o outro que está do meu lado, como um irmão que, juntos viveremos em um só coração, uma só alma, voltados para Deus. Nenhuma personalidade sã, agradável, integrada é proibida, mas trabalhada para melhor servir a comunidade de irmãos e a Igreja. Pois, é maravilhoso conviver com pessoas que se amam e amam os demais. Pode haver conflitos, mas nunca uma guerra, pois a amizade sempre reinará.

Santo Agostinho diz em suas Confissões (L. 1, 6) que “nossa alma é morada muito estreita para receber o Senhor, mas é alargada por Ele, quando se permite conhecimento pessoal de que somos limitados pelo pecado para essa plenitude”.

Quando olhamos para S. Agostinho como um exemplo de fidelidade e de serviço a Deus, com os irmãos; entenderemos que a espiritualidade canonical é a vida de entrega a Deus e aos irmãos, como fez, tantos santos que veneramos nos altares de nossa Igreja.

O auge para entender plenamente o carisma, a espiritualidade canonical é reconhecer a comunidade em que se vive, como um dom de Deus. Santo Agostinho compreende esse compartilhamento de vida, como graça do Senhor. E, a comunidade religiosa tem por obrigação de ajudar-se mutuamente para vencer os três inimigos clássicos do homem que são: Pecado, Mundo e Carne.

É fato, as normas que seguiam no mosteiro fundado pelo Bispo de Hipona não eram exigentes demais, nem excessivamente frouxas. Com o espírito prático que o caracteriza e uma consciência espiritual trabalhada e elevada, Agostinho compreendeu que a melhor regra de disciplina era conservar a justa medida que fluía sempre do caminho espiritual proposto por ele. O estudo, a oração de louvor e o exercício prático da caridade fraterna fazem da comunidade de Tagaste, um reflexo vivo da primeira comunidade apostólica mandou escrever na parede do refeitório uma frase em latim que, traduzida, fica assim: “Aquele que gosta de falar mal dos ausentes, saiba que é indigno de sentar-se nesta mesa”. Um dia, nos conta São Possídio, como alguns de seus amigos e colegas no episcopado houvessem esquecido esta sentença, os repreendeu com severidade e disse, cheio de caritativo rigor, que, ou haviam de apagar-se aqueles versos ou ele se retiraria imediatamente.

Que todos aqueles que abraçaram o carisma canonical, aperfeiçoem-se sempre mais para a cada dia, parecer-se com Cristo, chegando a afirmar com S. Paulo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL II
A prática da espiritualidade como alimento do Carisma canonical


A espiritualidade da Ordem é eminentemente agostiniana. A bússola que orienta o estilo de vida canonical são os Evangelhos, a Regra de Santo Agostinho e as Constituições.

Dois são os elementos essenciais da Ordem: o ser Cônego e o ter a Regra de Santo Agostinho. O primeiro elemento nos faz descendentes, herdeiros e continuadores da vida canonical; o segundo nos comprometem a viver uma vida comunitária, na busca e permanência do serviço litúrgico, e na vida apostólica.

Um cônego lateranense cultiva em si os aspectos que alimentaram a vida espiritual do Bispo de Hipona, já que segue a sua Regra:

1. Elemento Cristológico: Cristo era para Agostinho o centro de sua vida. Quando leu o Hortensio se desiludiu porque não encontrou nele o nome de Cristo. Quando aparecem os maniqueus adere a eles porque prometem ajudá-lo a buscar a verdade.

2. Elemento eclesial: Agostinho após seu batismo que se deu na noite santa de 24 de abril de 387, se coloca a serviço da Igreja; no primeiro momento não quis ser sacerdote, mas aceitou porque os fiéis lhe pediram; tampouco desejava o episcopado e aceitou por obediência. O intuito era viver unicamente uma vida de comunidade com seus irmãos, porém, dedicou-se primeiramente ao cuidado de sua diocese de Hipona, sem nunca deixar de viver em uma comunidade de irmãos. Obs: O Bispo a partir do séc. IV com o cessar a perseguição contra os cristãos, vai se tornar também juiz, pelo fato de ser uma liderança respeitada e reconhecida pelo povo.

3. Elemento da caridade: no entendimento e vivência dele como virtude que modera todos os exercícios de ação e contemplação. Daí a insistência do santo em ter uma só alma e um só coração dirigidos para Deus. Pois, Deus sempre esteve ao lado dos pobres, veio para os pobres e se fez pobre.

4. Elemento comunitário: Agostinho está inspirado para uma vida em comum. Ser comunidade é algo essencial para os seguidores da Regra, por tanto, viver em comunidade deve ser sua principal aspiração. Agostinho apresenta a Trindade como uma Comunidade perfeita de amor, um só coração e um só espírito, num corpo divino.

5. Viver a Espiritualidade Canonical: Ser pessoa de vida fraterna que professa os conselhos evangélicos dentro de um Carisma, eis a obrigação, englobando uma vida litúrgica, unida a vida apostólica. A comunidade orientada pela Regra e as Constituições, é convidada a oferecer um ambiente que permita o cônego a entrar dentro de si, onde encontra a Deus esperando-o e, iluminado por Cristo, Mestre interior, transcende a si mesmo, renova-se segundo a imagem do homem novo que é Jesus e se pacifica na contemplação da Verdade. Para o alcance de tal meta, a grande via é pelo estudo permanente da Sagrada Escritura e da Tradição, ouvindo o Magistério da Igreja, alimentado sempre dela Eucaristia.

A vocação canonical é uma contínua conversão e imitação de Cristo. Só com ajuda de Cristo, mediante uma purificação pela humildade, o homem pode entrar dentro de si mesmo onde encontrará os valores eternos, reencontra Cristo e reconhece nos irmãos. Esta interiorização é o princípio de toda piedade.

6. Consagração dos irmãos: O chamamento e a consagração comprometem o cônego a uma doação total a Deus, a uma imitação e a um seguimento mais livre e mais radical de Cristo, vivendo mais para ele e para seu Corpo, que é a Igreja.

Os religiosos da Ordem, em comunhão de caridade com os irmãos, caminham para a consagração perfeita, que será a comunhão com o Pai e com o Filho Jesus Cristo, na força do Espírito Santo. Enquanto não se toma consciência desta exigência que a Vida Consagrada na Igreja obriga, a força vital da Ordem pode enfraquecer: primeiro um cônego é consagrado, depois, pode ser ordenado. Mas o sacramento da ordem não é ponto constitutivo da Congregação, mesmo sendo ela eminentemente clerical, conforme reza as Constituições vigente.

7. Comunidade que Reza e Celebra: A oração ajuda o cônego a descobrir a presença misteriosa de Deus no coração dos homens, para amá-los como irmãos. O Espírito de Jesus faz perceber, por meio da oração, as manifestações do amor de Deus na trama dos acontecimentos; desta forma, conseguir-se-á a síntese necessária entre oração e vida.

8. Os cônegos e a Eucaristia: A Ordem Canonical tem a santa culpa de preparar a Igreja para o culto a Santíssima Eucaristia, graças a Santa Juliana de Cornelión e o Papa Urbano IV, ambos cônegos regulares de Santo Agostinho. Graças a eles, temos a festa de Corpus Christi. Na Polônia temos o Santuário do Santíssimo Sacramento e a figura de Santo Stanislaw Casimiritano, como conservadores deste amor e respeito eucarístico. Recordarmos também a São Norberto, mestre da contemplação eucarística. A Eucaristia é Dom da SS. Trindade. Se lermos com atenção o discurso sobre o Pão da Vida no sexto capítulo do Evangelho segundo S. João, vamos notar que Jesus apresenta a Eucaristia como dom da SS. Trindade. Primeiro ele declara: “O meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6, 32-33). Em seguida, ele revela que ele mesmo é “o pão vivo que desceu do céu.” E acrescenta: “E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 51). Por fim, ele fala do Espírito Santo dizendo: “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6, 63). Assim, o Evangelho revela a Eucaristia como dom trinitário, dom que vem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. De fato, a Eucaristia “está no centro da vida trinitária” como mostra o célebre ícone de Rublev. Portanto, para penetrarmos mais profundamente no Mistério Eucarístico, temos que contempla-lo à luz da SS. Trindade.

A celebração da Eucaristia é e deve ser o ato principal de cada dia, no qual a comunidade dos irmãos encontra-se reunida diante do altar de Cristo e anuncia a morte e ressurreição do Senhor.

9. A Virgem Maria: Cada cônego é convidado a amar filialmente e procura imitar a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, em cuja proteção se apoia a Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, sobre o título de Mãe do Salvador. O amor à Virgem Santíssima deve ser cultivado, pois São João XXIII ao aprovar a Confederação das Congregações canonicais, consagrou as mesmas ao Imaculado Coração de Maria.

Também celebramos as memórias dos Santos de nossa Ordem, como sinal de comunhão com toda a família canonical. Muito nos alegram em saber que os nossos confrades alcançaram a salvação. Ao celebrar as suas datas comemorativas, renovamos o convite à perfeição de vida.

10. Comunidade penitente: A virtude da penitência exercita-se principalmente no cumprimento fiel e constante do dever, na aceitação das dificuldades que dimanam do trabalho e do contato com os homens e finalmente suportando com paciência e amor as vicissitudes desta vida transitória, da enfermidade e da morte.

Os Cônegos fazem todos os dias seu exame de consciência, no momento da oração das Completas e é convidado a aproximar-se frequentemente do sacramento da Penitencia. Também, reza nas Constituições que se façam três celebrações penitencias comunitárias nas canônicas: na véspera da Solenidade do Natal do Senhor (25/12), na sexta-feira Santa e na véspera da Solenidade de Santo Agostinho (28/08), para um reconhecimento comunitário das fraquezas e a retomada da caminhada, perdoados mutuamente.

Ouvindo a Jesus Cristo que convida a negação de si mesmo, a tomar a cruz e a segui-lo, os cônegos, além de cumprir as penitências impostas pela lei eclesiástica, praticam outros atos de mortificação, especialmente nas quartas-feiras e sextas-feiras do ano, na quaresma.

11. Os irmãos doentes: A Regra de Santo Agostinho pede um especial cuidado para com os doentes, dando-lhes um tratamento todo especial na alimentação e na higiene, traduzindo assim a atenção na totalidade da saúde dos irmãos. Os Superiores são convidados a olhar com toda caridade, de acordo com as necessidades de cada um.


12. Os irmãos defuntos: Quando morre um irmão a canônica a que ele pertence, comunica às demais, para que todos os Cônegos rezem por ele (cf. Const.Cap. X e XI).

Todos os anos celebrem-se nas canônicas da Ordem Missas e o Ofício dos defuntos em sufrágio das almas: dia 27 de janeiro pelos pais e mães; no dia 05 de setembro ou no primeiro dia litúrgico livre, o aniversário de falecimento dos confrades, parentes e benfeitores.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL III
                      

A vida religiosa para Santo Agostinho se caracterizava pela configuração com Jesus Cristo Mestre e Senhor. Portanto, a formação canonical deve ser obrigatoriamente concebida e estruturada no seguimento à pedagogia do próprio Senhor Jesus Cristo. De tal modo o candidato à vida canonical é introduzido na dinâmica formativa a qual o Mestre Jesus se submeteu, ou seja, aprender Dele e com Ele “crescer em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”, para atingir a estatura e a maturidade de Cristo.

Então o cônego deve percorrer o itinerário formativo semelhante ao de Jesus, que se inicia no anonimato em Nazaré (postulado), passando pela consagração no seu Batismo e pela purificação no deserto; abandonando-se na vontade do Pai (noviciado), seguindo sua missão na vida pública (juniorado) até morrer com Ele na Cruz e com Ele ressuscitar (formação permanente). Em outras palavras, desde que o jovem se propõe à sequela de Cristo, deve passar pelas mesmas etapas quais passou o Mestre Jesus.

Agora veremos o que dizia São Posídio ao escrever sobre Santo Agostinho, afim de entendermos melhor este espírito formativo por meio do exemplo:

“Senti-me inspirado por Deus que criou e governa o universo, a empregar meus limitados recursos de inteligência e palavra para a edificação da Igreja Católica de Cristo Senhor, santa e verdadeira...” em consequência disso, também eu, o menor dos administradores dos dons divinos, animado da fé sincera que é indispensável para servir ao Senhor dos senhores e a seus fiéis, assim como para ser-lhes agradável, empreendi narrar, auxiliado pela graça de Deus, o nascimento, a vida e a morte baseado no que ele (Agostinho) me contou e no que eu mesmo verifiquei, tendo usufruído por muitos anos de sua amizade, testemunho que Agostinho foi verdadeiramente um homem de Deus”. (POSSÍDIO, São. Vida de Santo Agostinho, Paulus, São Paulo, 1997)

Santo Agostinho em 387, fundou uma comunidade para ser um lugar onde se cultive a fé no Deus Trino, a esperança de um mundo melhor e a caridade que une os irmãos no serviço mútuo. Quem quiser seguir as pegadas de Santo Agostinho tem que saber escutar a Cristo comunidade que ama o Pai e nos envia o Espírito Santo. Ele disse certo dia em um dos seus sermões, fazendo um comentário ao Evangelho de São João: “Você quer caminhar? Eu sou o Caminho. Você não quer ser enganado? Eu sou a Verdade. Vocês não querem morrer? Eu sou a Vida”. E é justamente esse elo que une todos os que seguem a Regra agostiniana! Um Caminho a percorrer, uma Verdade a ser vivida pra depois ser proclamada e uma Vida a ser defendida, amada e entregue a todos. Não se pode fazer um divórcio entre a Regra de Santo Agostinho e a vida de quem a segue, porque a regra é a alma do Instituto. Toda regra de vida oferece um carisma e uma espiritualidade. Por isto que os cônegos têm um carisma e uma espiritualidade bem definida!

Compreenderemos o que este homem de Deus aconselhava aos novos membros de sua comunidade: “Vocês devem ir aonde a Igreja necessite”. Esta é a beleza da espiritualidade agostiniana. Não ter um carisma fechado ou estritamente específico, quer dizer, estar aberto a todos os dons que o Espírito Santo vá presenteando a cada irmão na comunidade. É se fazer presente em todos os lugares, culturas, línguas e raças, sem perder o foco, anunciar Cristo Jesus, Salvador e Senhor de nossas vidas.

Resumindo todo o carisma de Santo Agostinho vemos que é: Amar a Deus sem condições, saber viver em comunidade como irmãos, experimentar a Cristo na interioridade, servir a Igreja em tudo o que ela necessitar e o principal, anunciar a Cristo com a Palavra e com o exemplo de vida. O verdadeiro seguidor da Regra fala de Deus sem dizer uma só palavra. Uma prova disso são os milhares de santos e santas que quiseram viver baixo a Regra de Santo Agostinho nestes quase 1600 anos de história após sua morte. Santo Agostinho descansou o seu coração que passou a vida toda inquieto no seu Amor, a “Beleza sempre antiga e tão nova”, Jesus.  Santo Agostinho abriu uma porta para o serviço da Igreja que nunca mais fechou, e Deus multiplicou o seu rebanho. Que Nosso Salvador Jesus Cristo nos ajude e esteja sempre atento as nossas preces. Assim seja!

 Cônego José Wilson Fabrício da Silva, crl



[1]              Uma reprodução da Paixão do Cristo e de seu belo testemunho diante de Pilatos.

sexta-feira

A relação histórica da Virgem Maria com o Brasil

Brasil, nomeado logo nos primórdios de sua ocupação pelos portugueses no século XVI de “Terra de Santa Cruz”. Chegava ao “novo mundo” trazida pelos europeus uma “imagem de Nossa Senhora da Esperança”, devoção particular do comandante Pedro Álvares Cabral. Aqui começa uma história de relação, até então conhecida, entre a figura da Mãe de Jesus e o Brasil. Portanto, o nosso país foi “descoberto” sob o olhar terno e protetor também da Virgem Maria.
1717: três pescadores, uma rede e um milagre!
Passados mais de dois séculos após o episódio do descobrimento do Brasil, categoricamente vemos uma intervenção da Mãe de Deus em terras brasileiras no ano de 1717. Podemos dizer que (a vila de Guaratinguetá) “Aparecida”, entra para a história como um evento misterioso da parte do céu em busca de justiça pela causa dos menos favorecidos explorados, onde sua maior riqueza era o dom da fé. Maria passa a fazer parte da identidade do povo brasileiro. Por tanto, não se trata apenas de um acontecimento religioso, mas também, político, social e cultural, que não devemos deixar passar inadvertido nestes festejos pátrios dos 300 anos em que o Brasil celebra o encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
O agora tão conhecido escritor e repórter Rodrigo Alvarez pelos amantes de documentários, procurou retratar estes fatos em seu livro “Aparecida: A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil”. No capítulo vinte e sete, apresenta um dado histórico que me fez pensar e rezar sobre ele; pois, ao afirmar que a Princesa Isabel não se tornou rainha do Brasil por vários motivos de outros interesses que não eram os da monarquia, mesmo assim, não deixou o país sem uma Realeza:
Depois da oração, a coroa que a princesa Isabel dera de presente foi recolocada sobre a cabeça da santinha. Deixou de ser só um ornamento luxuoso que se juntava ao manto azul e lhe escondia a feiura do pescoço quebrado para se transformar num símbolo de poder. Era curioso. O Brasil ainda estava acostumado a viver numa República, sem nobres herdados de Portugal, mas passava a ter, tardiamente, uma rainha. Era um passo decisivo para a consolidação de uma imagem nacional que se completaria algumas décadas depois com sua proclamação como padroeira do Brasil.[i]
Coroa de ouro doada pela Princesa Isabel
Pensando sobre a fecundidade do Ano da Graça que estamos experimentando com o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima e o tricentenário do encontro prodigioso da Imagem da Imaculada em Aparecida, senti no coração o desejo de expressar um humilde pensamento à luz da mariologia encarnada na vida do povo, chegando a conclusão de que tanto em Fátima ou em Aparecida, nossa gente se ver na casa e na escola de Maria. Quais os fatores que me faz afirmar isto? Vejamos. 
Santuário Nacional, ponto de encontro do Catolicismo brasileiro
É fato, pelo menos uma vez em cada ano, milhões de brasileiros se preparam para visitar “a casa da Mãe”. São dias de preparação, horas de viagem, para ficarem breves minutos diante da Imagem milagrosa de Nossa Senhora em Aparecida. Para o romeiro, não existe cansaço que impeça a repetição anual deste ritual para chegar ao Santuário. Incluo aqui o pensamento da Dra. Lina Boff, para nos ajudar a compreender este sentimento de pertença dos peregrinos para com o Santuário Nacional do Brasil:
Nas romarias as pessoas refletem sobre a vida e transitam no seu coração para se encontrarem a si mesmas. Fazer uma reflexão significa meditar tanto sobre as coisas mais simples como as mais complicadas da própria vida, da vida da sociedade e do mundo para buscar um sentido profundo de como viver.
A vivência da fé, do culto e da devoção a Nossa Senhora, que nos aponta Jesus, significa trazer para o tempo presente as experiências que nos deram vitalidade e também aquelas que atrapalharam a nossa caminhada de vida. Trata-se de revitalizar todas as dobras do nosso coração, dentro das quais se escondem as nossas conquistas, mas também os nossos fracassos e frustações.[ii]
“É como se estivesse em casa”, assim se sente e expressa um fiel devoto da Virgem Aparecida. Eis a grande responsabilidade dos Missionários Redentoristas! Cuidar bem do povo peregrino, pregar a sã Doutrina, insistir com os visitantes na vivência cotidiana dos sacramentos nas mais diversas comunidades católicas espalhadas em nosso imenso Brasil. Os devotos que visitam o Santuário sabem muito bem que não estão ali por mera tradição familiar, nem porque gostam de fazer turismo religioso. Se estão no Vale do Paraíba, é porque acreditam que lá a Mãe de Jesus escolheu para mostrar a sensibilidade de Deus para com o povo brasileiro.
Santuário Nacional de Aparecida
Em todos os lugares reconhecidos pela Igreja, por causa das manifestações marianas, Aparecida ocupa um lugar especial, constituindo pouco a pouco, parte da cultura brasileira. Hoje, mesmo aqueles que não creem, sabe que o Brasil deixou cativar seu coração pela Imaculada representada na imagem quebrada encontrada no Vale do Paraíba. Ali não aconteceu uma verdadeira aparição, no sentido minucioso da palavra, mas fomos surpreendidos por uma constelação de sinais vindo dos céus e de manifestações de fé de todas as classes sociais nestes trezentos anos. Diante do fenômeno de Aparecida, acorreram escravos, portugueses, índios, ricos, pobres, gente do Sul e do Norte, do Leste e do Oeste do Brasil e do mundo.
Utilizando o termo técnico da mariologia para se falar do Brasil, não temos dúvida de que em Aparecida aconteceu uma mariofania (manifestação da intervenção da Virgem Maria no meio do povo). Em outras palavras, houve uma ação sobrenatural, desconhecida e inexplicável cientificamente nos comprovados “milagres” reconhecidos pela Igreja que ganhou um significado espiritual: “A Virgem Maria libertou o escravo, curou a cega, fez parar o cavalo na entrada da capela, apagou e fez acender as velas sobre o “altar da santa” e fez aparecer os peixes para alimentar miraculosamente, inclusive, os exploradores dos pobres da Vila. Se em Caná da Galiléia a Mãe de Jesus disse: “Eles não têm mais vinho”, em Aparecida ela disse: “Eles não têm mais peixe”. Conforme Messori, dizemos:
Em Jesus, a fé vê Deus quem vem até o homem. Em Maria, descobre a criatura humana que é elevada até Deus. A humildade do Criador e a dignidade da criatura. É a dinâmica do “duplo movimento” (alto e baixo) sobre o qual se constrói todo o cristianismo. Da síntese dessas duas realidades nasce a fé autêntica.[iii]
 
No Brasil a Virgem é representada de mãos postas no séc. XVIII, na França “passa as contas do rosário nos dedos de suas santas mãos” no séc. XIX, em Portugal ela convida os santos pastorinhos de Fátima a “rezar e oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores” no séc. XX.
À luz desta afirmação, podemos ter a certeza de que no Brasil, a Virgem Maria fez brilhar a glória de Deus por meio de sua intercessão. A Igreja, reconhecendo os feitos realizados pela Mãe do Senhor aqui nestas terras, repete com todas as gerações a saudação de Isabel: “Tu és bendita mais do que todas as mulheres; bendito é também o fruto do teu ventre (cf. Lc 1, 42). Para os brasileiros, cada Ave Maria deve ser uma profissão de fé na maternidade divina.
No Brasil a Virgem é representada de mãos postas no séc. XVIII, na França “passa as contas do rosário nos dedos de suas santas mãos” no séc. XIX, em Portugal ela convida os santos pastorinhos de Fátima a “rezar e oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores” no séc. XX. Sendo assim, os mistérios que contemplamos em cada dezena mostram a união entre Jesus e Maria, manifestam e lembram novamente a cooperação de Mãe de Jesus na obra da Redenção, realçando o direito que ela tem à nossa particular veneração. O próprio Filho benditíssimo de Deus não quis entregar a sua vida em sacrifício, sem a presença daquela que lhe deu a existência humana, indicando assim o papel importante de Maria Santíssima no Mistério da Reconciliação do mundo. Repito, em Aparecida, Nossa Senhora de mãos postas em prece, obriga a todos nós a reconhecer sua grandeza diante de Deus e sua maternidade no meio de nós.

Cônego José Wilson Fabrício da Silva, crl
Membro da Academia Marial de Aparecida

[i]           ALVAREZ, Rodrigo. Aparecida: A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil. São Paulo: Globo Livros, 2014, p. 182.
[ii]             BOFF, Lina. Aparecida: 300 anos de romaria e prece. São Paulo: Paulinas, 2017, pp. 11-12.
[iii]             MESSORI, Vittorio. Hipóteses sobre Maria: Fatos, indícios, enigmas. Aparecida: Santuário, 2014, p. 184.
Fonte: http://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/a-relacao-historica-da-virgem-maria-com-o-brasil

Aparecida, nova Nazaré, casa de Maria!

nicho aparecida
Temos vários comentários, livros, artigos, poemas e obras de arte que procuraram expressar, não somente um sentimento afetuoso, mas também, uma consciência de fé muito segura, quanto ao artigo do Credo cristão católico que coloca em nossa boca o seguinte argumento: “E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem”. Eis o motivo que a teologia se dedica em aprofundar seus estudos sobre a vida e a missão da filha bendita de Joaquim e Ana, dentro da Economia da Salvação.
Não podemos viver um cristianismo sem pensá-lo, como dizia Santo Agostinho: “A fé e a razão são duas asas que nos levam para Deus”. Mistérios da Fé que envolve o poder e a ação da Trindade, não se provam em laboratório, nem pelas avançadas máquinas do mundo da ciência, mas podemos contemplá-los e comentá-los à luz dos métodos lícitos e reconhecidos da teologia. Pensar e crer, assim deve ser; trabalhar e rezar, meditar e aceitar a ação salvadora de Deus no mundo.
Quis o Senhor se revelar, procurando fazer isto da melhor forma possível que achou, afim da humanidade não ter repulsa à sua ação, nem achasse simples demais tal evento, sendo obra de um Deus tão grande. A Virgem Maria participa de uma forma ativa e dinâmica do feitio de Revelação que o Todo-poderoso utilizou afim de fazer-se conhecido pelos homens. Mesmo sendo preparada a uma missão que lhe imprimiria um caráter indelével, como o foi de fato, poderia Deus usá-la, sendo um mero instrumento, e depois deixar que Maria fosse viver sua vida, como se nada lhe tivesse acontecido, inclusive usufruindo dos prazeres mais horrendos do mundo. Porém, não foi assim, porque a Virgem filha de Sião[1] não foi meramente “usada por Deus”, mas obteve a graça de ser colaboradora do Senhor na restauração da vida da humanidade e na morte definitiva do pecado.
A perversidade foi extirpada do processo de concepção e formação dos membros e do gênio sacrossantos de Maria no ventre de Ana. O pecado (ou o domínio propenso para o mal), já nasceu morto como um aborto nas entranhas da esposa de São Joaquim, mesmo sendo ela uma pecadora que achou graça diante de Deus para ser avó de Jesus. Simplificando este argumento teológico delicado e perigoso, podemos dizer: assim como uma mãe grávida esperava um filho e fazia votos de que ele nascesse “todo perfeito”, tendo a consciência de que deveria ser normal em tudo, inclusive nas práticas de pecado, Ana assim esperava no nascimento de qualquer filho que de seu ventre saísse, como todas as mães da Judéia. Mas, Deus permitiu que Maria viesse ao mundo perfeita em tudo, igual a antiga Eva antes da queda, porém sem “a tendência ao pecado”. Sendo assim, Maria tinha uma deficiência aos olhos do mundo infrator, pois disposição à transgressão, frente à ordem natural e divina, não fazia parte do arquétipo genético da filha de Joaquim, pois o protótipo de Maria sem ultrapassar as leis humanas, teve a ação direta das mãos e do coração de Deus.
No nascimento da κεχαριτωμένη[2] se cumpriu a profecia promulgada pelo próprio Senhor: “Porei inimizade entre ti a Mulher” (Gn 3, 15). No fundo, não há muita discordância em relação às traduções[3]. Aqui vemos a grandeza do Senhor na vida da Mãe de Jesus o Cristo. Outro dado que devemos olhar com atenção deve ser colocado sobre o encontro da Virgem Maria com Isabel, grávida também, fruto de um episódio miraculoso. Da esposa de Zacarias nasceu João Batista. A frase a qual nos referimos para que tenhamos aplicação se encontra em São Lucas (1, 43), e conta a satisfação de Isabel pela presença da filha de Santa Ana em sua casa: “Donde me vem a honra que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”. Quem fala aqui é aquela que disse: “Isto fez por mim o Senhor, quando se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens”[4].
Não nos esqueçamos de que o dogma fundamental de todo o cristianismo é de “Jesus Deus”, o Verbo de Deus encarnado (Jo 1, 14), logo Maria, sua Mãe, é Mãe de Deus ( Lc 1, 43). Trata-se, pois, de algo expresso e claramente revelado por Deus na Sagrada Escritura, confirmado para sempre pela Igreja no Concílio de Éfeso[5] como verdade de fé. Citemos as palavras de São Gregório de Nazianzo do século IV para expressar esta grandiosidade:
O próprio Filho de Deus, que existe desde toda a eternidade, o invisível, o incompreensível, incorpóreo, princípio que procede do princípio, a luz nascida da luz, a fonte da vida e da imortalidade, a expressão do arquétipo, divino, o selo inamovível, a imagem perfeita, a palavra e o pensamento do Pai, vem em ajuda da criatura feita à sua imagem, e por amor do homem se faz homem. Para purificar aqueles de quem se tornou semelhante, assume tudo o que é humano, exceto o pecado. Foi concebido por uma Virgem, já santificada pelo Espírito Santo no corpo e na alma, para honrar a maternidade e ao mesmo tempo exaltar a excelência da virgindade; e assumindo a humanidade sem deixar de ser Deus, uniu em si mesmo duas realidades contrárias, a saber, a carne e o espírito. Uma delas conferiu a divindade, a outra recebeu-a.[6]
Percebemos aqui o grande papel de Maria na história da Salvação, estreitamente unido ao mistério de Cristo e da Igreja. Não temos que perder estas referências essenciais dadas à doutrina cristológica, oferecendo a Mãe de Jesus o justo lugar, descobrindo sua vasta e inesgotável riqueza oferecida ao campo da fé verdadeira.
 
Em Aparecida conseguimos experimentar os aspectos centrais da Mariologia, porque a Igreja Peregrina pode ser facilmente identificada aos pés da Imagem da Imaculada.
Em Aparecida conseguimos experimentar os aspectos centrais da Mariologia, porque a Igreja Peregrina pode ser facilmente identificada aos pés da Imagem da Imaculada. Levando em conta a relação do povo de Deus com os mistérios da fé, a Virgem Mãe recebe um trato específico, porque não se pode negar, até pelos mais ferrenhos críticos, que sua missão na história da Salvação foi e é importante, tornando-se até hoje um fato mistérico, digno de fé, incompreensível à razão humana, mas credível e aceitável ao coração de todo aquele que abraça a mensagem do Evangelho genuíno. O franciscano Raniero Cantalamessa no livro: “Maria um espelho para a Igreja”, afirma que “Nossa Senhora é, antes de tudo, um capítulo da Palavra de Deus”[7]. Seguindo as indicações do Concílio Vaticano II, ajudados pela Lumen Gentium no capítulo oitavo, entendemos o que autor italiano quis apregoar nesta obra:
De fato, chegou o momento de não mais fazer de Maria um motivo de discussão e divisão entre os cristãos, mas sim uma ocasião de unidade e fraternidade entre eles. Maria aparece-nos como o sinal de uma Igreja dos gentios, sendo por isso mesmo o mais forte para a unidade.[8]
Com efeito, o papel que Deus assinala na salvação do mundo com Maria, requer-se dos cristãos, não só uma acolhida e atenção, mas também gestos concretos que se traduzam na vida de todos os batizados. As atitudes evangélicas dAquela que precede a Igreja na fé e na santidade, devem fazer parte da nossa meditação cotidiana, afim de tornar-nos mais parecidos com ela diante de Deus, meta final e desejosa da parte do Senhor para todo o gênero humano. Não há mais tempo de nos apegarmos a ideologias contrárias à própria vontade da Trindade, quando o tema teológico é a pessoa da Mãe de Jesus. Sua missão na Igreja nunca sessou, pois, em toda vida da Comunidade, a Virgem Santa sempre reuniu filhos dispersos e os conduziu a Jesus.
Misteriosamente encontramos em diversas partes do mundo, lugares dedicados à Mãe de Cristo, vistos como oásis para os cristãos sedentos do socorro que vem do alto. Maria conduz todos para seu Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2, 5). O povo acorre a estes centros de peregrinações atraídos pela Virgem Mãe e acaba se encontrando com Jesus Eucarístico nos altares principais dos santuários. Estas mesas sacrificais não cessam de alimentar a todo aquele que se coloca em marcha para receber “o Pão descido do céu” (Jo 6, 51). Repetimos, Aparecida é para todos os devotos um lugar de impacto entre Deus e seu povo, onde Maria é a medianeira. Olhar para pequenina Imagem lá em seu trono, ricamente trabalhado pela oferta generosa dos devotos, é ter a certeza que ali não devemos ter dúvida do amparo divino. As terras de Aparecida foram para nossos antepassados nestes trezentos anos, e é para nós e para as gerações futuras, uma terra hierofânica[9].
Totem marcará 300 dias para o Jubileu de Aparecida (Elisangela Cavalheiro)
Aparecida é a nova Nazaré, prepara por Deus para ser casa de Maria no meio de seu povo, lugar de visitação dos filhos da Igreja, casa de misericórdia, recinto operoso em que o Espírito Santo usa para dar vigor a uma parcela da Igreja Universal, assim como fez em Pentecostes (At 1, 14; 2, 1). Se “Fátima é o altar do mundo”, segundo São João Paulo II, Aparecida tem o manto azul de Maria que cobre todas as raças, povos, línguas e nações. Aqui entendemos, alegoricamente falando, que se o “povo brasileiro é conhecido como um povo hospitaleiro”, deve-se ao fato de sermos a Nação proprietária do manto da Mãe de Jesus. Debaixo deste manto, todos nós queremos estar. Deus tem sempre algo a dizer para cada pessoa em particular que estaciona o trem da vida, nem que seja por uns breves segundos, diante da Virgem de Aparecida e troca olhares com ela. Trago aqui umas das afirmações de Lutero, para ajudarmos nesta reflexão. Mesmo depois de acontecer a revolução de 1517, jamais deixou de ser um defensor e devoto de Nossa Senhora. Vejamos:
Deus não recebeu sua divindade de Maria; contudo, não segue que seja, por conseguinte, errado asseverar que Deus foi conduzido por Maria, que Deus é fruto do ventre de Maria, e que Maria resta a Mãe de Deus. Assim sendo, é a Mãe verdadeira de Deus, a portadora de Deus. Maria amamentou o próprio Deus; ele foi embalado para adormecer por ela, foi alimentado por ela, etc. Igualmente para o Deus e como o Homem: um único ser, um único filho, um único Jesus, e não “dois Cristos”. De tal modo, que sua criança não consiste em dois filhos (...) mesmo que tenha duas naturezas. É um artigo de fé que Maria é a Mãe do Senhor e, ainda, é virgem. (...) Cristo, cremos, saiu de um ventre que deixou perfeitamente intacto.[10]
A Mãe do Senhor exerce uma influência especial no modo de orar dos fiéis. A doutrina e o culto mariano não são frutos de um sentimentalismo. O mistério realizado na Virgem Maria é uma verdade revelada que se impõe à inteligência dos crentes. Aos que são membros da Igreja tem a missão de estudar e ensinar o que o Espírito Santo os conceder para aprofundamento da fé, quanto o assunto de nosso interesse for a união hipostática de Cristo, tendo como protagonistas principais o Pai e Maria.
O Concílio Vaticano II pediu que se evitasse o falso exagero (LG 67), a atitude maximalista que pretende estender a Virgem Mãe as prerrogativas de Cristo e todos os carismas da Igreja. Sempre é necessário manter a infinita diferença que existe entre a pessoa humana de Maria e a pessoa divina de Jesus, mas Jesus não poderia ser um igual a nós sem Maria, nem Maria poderia ser tão importante para Deus e para o mundo, se não fosse em função do próprio Jesus Cristo. Também exortou o Concílio que se evitasse a excessiva estreiteza do espírito minimalista que usa de interpretações exegéticas sobre os atos de culto, pretendendo reduzir, e até retirar a importância da Virgem Maria do Plano Divino da Salvação; assim como sua virgindade perpétua, sua santidade da vida e sua missão na Igreja, em nome de uma “teologia sadia”. Não nos esqueçamos de que o Vaticano II nos oferece um critério de discernimento majestoso que nos permite discernir sobre a autêntica doutrina mariológica: “Na santa Igreja, Maria ocupa o lugar mais alto depois de Cristo, e o mais próximo de nós” (LG 54).
Aqui nasce a necessidade de olhar para a Mariologia, acolhendo-a enquanto ciência e não um apêndice da Teologia. Tem um princípio próprio e fundamental que a faz distinguir formalmente das outras partes da Teologia. É a reflexão mariológica como uma fonte de unidade de todas as verdades cognoscíveis sobre a Mãe de Deus. Isto não é e não foi tão fácil! Até mesmo os teólogos cristãos se dividiram quando se falou deste assunto, ao pretender elevar a mariologia à categoria de ciência.
Aspiremos sempre a meditação sobre a importância da Virgem esposa de São José, afim de conhecer seu valor, munidos da Escritura e da magnífica Tradição bi-milenar da Igreja, assistida pelo Paráclito, mediante a ação do Magistério. Se acentuarmos nossa atenção, perceberemos que a Virgem Maria está presente nos três momentos constitutivos dos mistérios do Cristianismo, a saber, a Encarnação, a Páscoa e Pentecostes. A Encarnação aconteceu nela, em sua pessoa, em seu ventre que recebeu Jesus Redentor do mundo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Quanto ao mistério Pascal, ela estava aos pés da Cruz (cf. Jo 19, 25), testemunhando privilegiada e dolorosamente, nossa Redenção, realizada por seu Filho, que destruiu o pecado e fez nova todas as coisas (Ap 21, 5). Também estava ela em Pentecostes, na vinda do Santificador (cf. At. 1, 14), que prolonga na Igreja de Jesus Cristo a Redenção por meio dos Sacramentos. Então, Maria não pode ser excluída por simples gosto reflexivo do mistério do Reino de Deus que foi desejado pelo Pai, inaugurado por Cristo, indo historicamente constituindo-se pela Igreja através da ação do Espírito Santo, que nos encaminha para a realização plena na Eternidade. Por isto, este tema é muito apropriado, para compreendermos o valor da pessoa de Maria em Aparecida, a partir do conceito de Reino de Deus e da Eclesiologia.
Autor: Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl

Fonte: http://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/aparecida-nova-nazare-casa-de-maria-1
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[1]      A Filha de Sião é primeiramente o povo de Israel, simbolizado pela própria cidade de Jerusalém, situada no Monte Sião. Israel, o da Antiga Aliança, pode ainda hoje escutar este convite à alegria, presente em tantos profetas: o Senhor não abandonou o Seu povo; vem a ele para salvá-lo nos apertos da história. O Senhor vem! E Israel, o antigo povo, continua a esperar o Messias prometido, como sinal da proximidade e da salvação abençoada do Senhor Deus. Mas, a Filha de Sião é também a Virgem Maria, que em si sintetiza e personifica o povo da Antiga Aliança. Isto aparece bem claro na Escritura se compararmos a profecia de Sofonias 3,14-17 e Lc 1,26-31. No Novo Testamento a Virgem Santíssima é declarada Filha de Sião, personificação doa antigo povo. Veja só, comparando os textos sagrados segundo Lucas e Sofonias: Sf vv. 14-15: “Rejubila, filha de Sião, solta gritos de alegria, Israel, alegra-te filha de Jerusalém!’ O Senhor revogou tua sentença, eliminou teu inimigo. O Senhor está no meio de ti: não verás mais a desgraça”// Lc v. 28: “Alegra-te, Cheia de graça! O Senhor está contigo!” – Sf v. 16: “Naquele dia será dito a Jerusalém: ‘Não temas, Sião! Não desfaleçam as tuas mãos!’”//Lc v. 30: “Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto de Deus!” – Sf v. 17: “O Senhor, o teu Deus, está no meio de ti, um herói que salva!”// Lc v. 31: “Eis que conceberás no teu seio (= dentro de ti, em ti) e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus (= o Senhor salva)!” Eis, portanto: Maria Virgem é personificação do Antigo Israel, mas é também prenúncio do Novo Israel, que é a Igreja: ela e a Igreja são a Mulher prenunciada por Gn 3,15, presente em Jo 2,4; 19,26; Gl 4,4; Ap 12,1ss. Aqui, damos um passo adiante: a Filha de Sião é a Igreja, prefigurada em Maria Virgem e Mãe: o Senhor que habitou no seio da Virgem promete que habitará sempre no seio da Virgem Igreja, Sua Esposa: “Eu, o Senhor, vou morar em teu meio!” Por isso a esperança, por isso a certeza da Mãe Igreja e de cada um de nós, seus membros e seus filhos: o Senhor está conosco! Mesmo nos maiores apertos da vida o Senhor Salvador que veio no Natal cumprindo as promessas antigas, continua no nosso meio, como Ele mesmo prometera: “Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos!” (Mt 28,20). É Ele que a Igreja espera, pois já conosco, manifestar-Se-á em glória no Seu Dia, Dia eterno, Dia bendito, Dia de salvação perpétua! Então, coragem: “Erguei-vos e levantai a cabeça, pois a vossa libertação está próxima!” (Lc 21,28). (Palavras de Dom Henrique Soares da Costa – Bispo diocesano de Palmares – PE).
[2]             Cheia de Graça.
[3]             Talvez é uma coisa boa ter presente, a forma verbal desse vocábulo, isto é, estamos diante de um particípio passivo. A voz passiva sublinha o fato de tratar-se de algo “sofrido”, isto é, não é a pessoa mesma que faz a ação, mas sofre a ação. Portanto, Maria foi “enchida” de graça! Este Dom não é algo que é inerente a ela mesma, mas foi um favor especial dado pelo próprio Deus.
[4]             Lc 1, 25. O verbo grego usado é πεποίηκεν (pepoiēken). É um perfeito indicativo do verbo “poieo”, fazer. É evidente que tem uma diferença entre os dois termos usados. Um verbo especial é usado para descrever o que aconteceu com Maria, pois quem dela nascerá é muito maior do que João Batista.
[5]             Ano 431 d. C.
[6]             LITURGIA DAS HORAS SEGUNDO O RITO ROMANO. I Tempo do Advento e Tempo do Natal. Petrópolis: Vozes, 1999, pp. 130-131.
[7]             Cf. CANTALAMESSA, Raniero. Maria, um espelho para a Igreja. 14ª ed. Aparecida: Santuário, 2016, p.5.
[8]             Id. p. 7.
[9]             Hierofania (do grego hieros (ἱερός) = santo, sagrado; faneia (φαίνειν) = manifesto) pode ser definido como o ato de manifestação do Sagrado.
[10]             Martin Luther. – in: J. Pelikan (trad. ing.). LW-Luther’s Work. 1955, vol.11, pp.319-320; e (…) vol.6. p.510.