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quinta-feira

A presença da Virgem Maria na vida da Igreja através dos tempos

Com toda a Igreja, celebramos a presença, a força, a graça e a Pessoa do Espírito Santo na vida e na missão da Comunidade. É ele a vitalidade do Corpo de Cristo, assim como a alma é necessária e fundamental para que a matéria humana permaneça de pé, realizando as atividades mais simples, como por exemplo o abrir e fechar as pálpebras dos olhos.
Reconhecer a presença do Espírito Santo nestes três milênios da caminhada da Igreja, renova a inspiração, alegra e encoraja a missão dos batizados, porque devemos está no mundo para renová-lo com nossa maneira de falar, trabalhar, de servir e rezar (cf. Rm 12, 2). Se cheios do Espírito Santo os Apóstolos incendiaram o mundo, hoje, Ele continua pela força emanada da Eucaristia, purificando e renovando as veias da Igreja, nos dando um sangue novo, capaz de fazer de cada batizado, farol tão potente que pode ultrapassar cidades, estados e países a luminosidade de nossa fé e a graça de Deus por meio de nossas obras.
Devemos perceber a Providência Divina na vida da Igreja, desde os primórdios. Nos Atos dos Apóstolos, encontramos uma presença materna doada pelo próprio Senhor no episódio da Cruz. A compleição da Virgem Maria, misteriosamente fez e faz a Comunidade Cristã se sentir mais segura. Sua permanência no meio dos discípulos cria um sentimento de continuidade na descontinuidade¹. A Mãe de Jesus está no meio dos seguidores dele, porque é inspirada pelo mesmo Espírito a jamais abandonar e nem ser excluída da Igreja. Já não era para Maria um “orgulho” ser considerada mãe do Corpo humano e místico de seu Filho, mas se tornara uma obrigação, quem sabe até dolorosa, proteger, interceder, consolar a Igreja perseguida e orientar com sua experiência e simplicidade de Mulher da fé. Assim como em Jerusalém houve uma preparação para a vinda do Espírito, e enquanto ele não chegava a Comunidade perseveravam em oração (At 1, 14), assim, a Igreja nos ensina a esperar a ação de Deus naquilo que somos incapazes de resolver, tendo como modelo este Evento registrado em Pentecostes. Ali estava a Mãe do Senhor. Ela não precisava do Espírito Santo, pois já era “cheia da Graça”, mas se permanecia ali, tinha um motivo: o exemplo. A Virgem Maria nos ensina que de fato o Espírito de Deus faz grande revolução no homem, mas não passamos de uma “peneira vazia” que só fica cheia, quando está inundada na água. Sendo assim, nunca é demais receber e permanecer na força santificadora do Senhor que se oferece na vida da Igreja. Entendamos melhor em que sentido queremos apontar para a presença de Maria no meio da Assembleia dos cristãos:
Maria, pois, lembra e proclama à Igreja isto em primeiro lugar: tudo é graça. A graça é a característica do cristianismo, que por ela se diferencia de qualquer outra religião. Do ponto de vista das doutrinas morais e dos dogmas, ou das outras praticadas por seus adeptos, pode haver semelhanças e equivalências, ao menos parciais. As obras de alguns adeptos de outras religiões podem ser até melhores que as de muitos cristãos. O que faz a diferença é a graça, porque a graça não é uma doutrina ou uma ideia, mas é antes de tudo uma realidade, e, como tal, ou existe ou não existe. A graça decide da qualidade das obras e da vida de uma pessoa: isto é, se elas são obras humanas ou divinas, temporárias ou eternas. No cristianismo existe a graça, porque há uma fonte central de produção da graça: a morte redentora de Cristo, a reconciliação por ele operada. Os fundadores de religiões limitaram-se a dar o exemplo, mas Cristo não deu só o exemplo; deu a graça².
A Igreja Apostólica foi aprendendo, orientada pelo Espírito Santo, a amar a figura materna de Maria. Porém, não se relata e nem deveria estar registrado no Cânon das Escrituras neo-testamentárias esta relação afetiva de Comunidade Cristã e a Mãe do Senhor, porque os escritos apostólicos não foram inspirados ou elaborados pensando em registrar os feitos de Maria, mas toda a ação de seu Filho Jesus, o Verbo Encarnado (Jo 1, 14), aquilo que chamamos na teologia de “Economia da Salvação”. Porém, os eventos e as personalidades presentes na vida da Igreja também tiveram o seu lugar na Bíblia. E, nele, Maria tem a sua parte sendo “Mãe” (Gl 4, 4-7), “Mulher de oração” (At 1, 14), e, depois de sua páscoa terrena, vista como a “Mulher vestida de sol” (Ap 12, 1). Os Padres da Igreja, meditando sobre o estupendo mistério da Eleição de Maria e olhando as mais requintadas obras de arte que procuravam mostrar a Mãe sempre unida a seu Filho por meio da pintura, poesia ou oração, teologizaram sobre a figura de Maria de Nazaré, reservando a ela as mais nobres palavras em seus escritos.
No século XI a Igreja do Oriente e do Ocidente sofre com a separação entre orientais ortodoxos e latinos. Porém, seguimos tendo a mesma Bíblia e quase todos os pontos doutrinários em comuns. No séc. XVI governa a Igreja Latina o Papa Sixto V, e, por necessidade pastoral escreve a bula “Dum Ineffabilia” de 30 de janeiro de 1586. Ele enfrenta com grande firmeza as consequências do período da grande apostasia contra a fé católica iniciada em 1517, e proclama para todo o orbe cristão uma declaração muito profunda sobre a presença materna de Maria na vida da Igreja, exaltando e defendendo o culto a ela tributado em todos os lugares da terra, vejamos:

Quando piedosamente investigamos os insignes e inefáveis merecimentos com que a Mãe de Deus, a Santa Virgem Maria, vemos gloriosamente reinar nos céus, anteposta nas moradas celestes. Esplendidamente Maria brilha como estrela matutina, devemos meditar sobre o instinto do coração que ela, como mãe da Misericórdia, mãe de graça e piedade, amiga e consoladora da linhagem humana, ativa e vigilantíssima advogada em favor da salvação dos fiéis, sumamente abrumados pela culpa dos delitos, interpõe seu valimento ante o Rei. Ela o concebeu e amamentou, e, por isto, jugamos por algo digno, ter igrejas, capelas e confrarias erigidas e instituídas em sua honra. Assim, sejam obsequiadas com indulgências, e sejam também defendidas pelo peso de nossa aprovação.³

Vemos aqui um sentimento devocional e filial que transpassa o coração do Papa, colocando-o nas fileiras dos amantes e defensores do culto mariano. Se pararmos para analisar cada expressão sobre a figura materna daquela que gerou o Verbo Eterno, notaremos alguns aspectos muito importantes para a mariologia atual, por exemplo esta afirmação que aponta para o Dogma da Assunção e para a festa de Nossa Senhora Rainha: “A Santa Virgem Maria, gloriosamente reina nos céus, anteposta nas moradas celestes”. Também as palavras do Papa Sixto V denuncia o aspecto da visão mariana que o mundo cristão católico tinha em mente e que estava em alguns lugares ameaçada pelo avanço do protestantismo vigente que já começada a perder a visão e a devoção mariana de seu idealizador, Martin Lutero. Hoje, somos convidados a sempre revisitar a História da Devoção Mariana, afim de ajudar a purificar o pensamento e o amor que a Igreja, povo de Deus, tributa a Maria de Nazaré, proclamada Mãe e Modelo para os cristãos. Também é algo necessário e bíblico, porque segue a orientação de São Pedro nas Escrituras: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. (1Pd 3, 15). Nos alegramos porque a presença de Maria no momento fundacional da Igreja em Pentecostes (At 1, 14), continuou, não somente pelo desejo dos batizados que sempre admiraram a coragem e a vida da Mãe do seu Senhor, mas também por bondade e favor de Deus. 
(cf. Lc 1, 46).
Exaltar a vida, a presença e a missão de Maria na Igreja, nunca diminui a glória, a bondade e o poder de Deus. Maria se junta a Igreja e adora ao Senhor, Aquele que a escolheu e a cumulou de graças para serem distribuídas entre nós que pedimos sua intercessão. Portanto, o argumento de que Jesus, “o único Mediador” X a “Mediação de Maria e dos Santos”, é um conflito inexistente segundo as Escrituras e a Tradição da Igreja.
Côn. José Wilson Fabrício da Silva, crl 
Membro da Academia Marial de Aparecida

1 Continuidade na descontinuidade significa que a presença humana de Jesus já não se poderia ter após a Ascenção, mas a presença consoladora de Maria e o Dom do Espírito Santo por meio da Ação sagrada da Liturgia que acabara de nascer, não permitia que se fizesse falta a presença do Mestre, pois Ele continuava vivo na vida e na missão da Igreja. Não era meramente um sentimento que fazia a Comunidade Apostólica seguir a diante, mas a própria Pessoa de Jesus por meio da Eucaristia, da Palavra viva e proclamada, dos Sinais e da santidade manifestados e da conformidade da vida dos seguidores com a vida de Jesus, por meio do Batismo.
2 CANTALAMESSA, Raniero. Maria: um espelho para a Igreja. 14º ed. Aparecida: Santuário, 2016, pp. 23-24.
3 Cf. DOCTRINA PONTIFICIA. Tomo IV: Documentos marianos. Madrid: BAC, 1954, pp. 91-92. Tradução nossa. 

http://www.a12.com/academia/artigos/a-presenca-da-virgem-maria-na-vida-da-igreja-atraves-dos-tempos

quarta-feira

A ESPIRITUALIDADE DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

A ESPIRITUALIDADE DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA

Contexto Histórico e Teológico do tempo de Santo Agostinho

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste (Numídia) no dia 13 de novembro de 354, primeiro filho de um funcionário municipal, Patrício, e de Santa Mônica. É ele o último padre da Patrística e o primeiro da Idade Média. Nos estudos, Agostinho cursou primeiramente em sua terra natal (Tagaste) continuando em Madaura e posteriormente em Cartago. Em 372 teve um filho chamado Adeonato com uma jovem que desconhecemos o nome nos registros, mas alguns historiadores afirmam que se chamava de Melânea. Foi professor de retórica em Cartago e depois em Roma, e, por indicação do prefeito romano, Símaco, Obteve a cátedra oficial de mestre em Retórica em Milão. De 375 a 383 já o inquietavam agora fortes dúvidas sobre a verdade do maniqueísmo após ser ouvinte destes.

Estando em Milão, travou conhecimento com o neoplatonismo. Ao mesmo tempo ouvia regularmente os sermões de Santo Ambrósio, onde percebia um catolicismo mais sublime do que o imaginado. Ambrósio ajudou Agostinho na compreensão do neoplatonismo em comparação com o cristianismo em suas similaridades[1]. Fez-se batizar no sábado santo de 387, com seu filho e alguns de seus amigos por Ambrósio. Pouco tempo depois tornou-se presbítero e por fim, bispo de Hipona.

Nascido no século IV, Agostinho faz parte da geração que sucedeu ao fim das perseguições e o acesso da Igreja à liberdade plena. É uma época marcada por grandes heresias, como o arianismo e suas sequelas que provocaram os primeiros Concílios, Niceia em 325 e Constantinopla em 381, e suas confissões de fé. Em 410, o mundo romano perplexo, toma conhecimento da tomada de Roma por Alarico e da pilhagem da Cidade Eterna por seus comparsas[2]. Esse acontecimento trágico provoca a fuga de muitos romanos para África ocasionando ataque dos pagãos contra a religião cristã: “se Roma caiu, foi porque abandonou seus deuses pelo cristianismo”. Para refutar essas acusações, Agostinho vai escrever sua grande obra, De Civitate Dei, que extrapolando seu objeto principal, traça um quadro de toda a história humana disposta em torno do antagonismo entre duas cidades, a Cidade de Deus movida pelo amor de Deus até o desprezo de si, e a cidade terrestre, guiada pelo amor de si até o desprezo de Deus. Em 396 Agostinho sucede a São Valério na Sé de Hipona. Ele se encarrega imediatamente da luta contra os donatistas que começou em Catargo no início dos anos 400 com Donato. Em 411 Agostinho, novamente, por amor a Igreja fundada por Jesus e entregue a Pedro, retoma a luta com os pelagianos, a qual se dedicará em combatê-los até o fim de sua vida.

Contextualização da Espiritualidade de Santo Agostinho

No campo espiritual, o século IV também conhecerá uma transformação importante da qual fará parte Santo Agostinho. Os historiadores mostraram como a espiritualidade monástica substituiu o ideal do martírio[1]. Talvez tenha sido menos enfatizada a passagem do qual Agostinho será o principal artesão no Ocidente. É possível constatar essa mudança ao comparar a interpretação das beatitudes de Santo Ambrósio e de Santo Agostinho. Para o bispo de Milão, as beatitudes representam os oito graus do avanço progressivo da vida cristã, desde a humildade até a coroa do martírio. Aqui explica-se o surgimento do ideal da sabedoria que substituirá o do martírio, que não poderá mais desempenhar o mesmo papel na Igreja, após o término das perseguições. Mas ele se fixará e se desenvolverá apenas na humilde meditação das Escrituras cristãs, especialmente as epístolas de São Paulo, como a primeira aos Coríntios, que revela aos humildes a sabedoria de Deus oculta aos sábios deste mundo. A vida de Santo Agostinho será uma busca pela sabedoria. Sua explicação das beatitudes já nos revela o espírito que acompanhará suas grandes obras.

Podemos dizer sobre a espiritualidade agostiniana que é um método que liga a Deus pela via da meditação, silêncio, ouvir o coração e ouvir-se; logo em seguida, colocar o que foi meditado em prática por meio do trabalho. É um caminho que proporciona um voltar para dentro de si mesmo, buscando da Verdade para que, encontrando-a permaneça nela[3].

A experiência espiritual proposta por Santo Agostinho pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade – de Deus; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos. Quer dizer, a busca de Deus, para Agostinho, identifica-se com a busca da Verdade. Mas não diz respeito somente a quem busca verdades sobre as coisas boas, ou a quem ainda não tem fé, nem a quem ainda não encontrou em Cristo a verdade de sua existência. Também não se trata unicamente de atividade do pensamento, como mera atividade filosófica, mas trata-se de uma atitude de fé em constante busca de Deus; é uma realidade existencial; envolve mente e coração; o ser em sua totalidade em empenho constante de busca. É adquirir uma estreita relação com a Palavra de Deus, uma intensa vida de oração, buscar dignificar a liturgia e celebrá-la bem como um lugar da manifestação de Deus.

Devemos olhar este método de busca proposto pelo Doutor da Graça e perguntar: Mas como buscar e onde encontrar Deus? Pela via da interioridade, diz Agostinho, mediante a contemplação. A interioridade é, então, um movimento para dentro de si mesmo, não para exercitar o movimento dos próprios pensamentos, mas para ouvir-se, ver-se e, ao se encontrar a própria mutabilidade, sair de si mesmo para ascender à luz de sua razão, aquele que a ilumina e lhe fala na consciência[4]. É praticar um exercício bem simples e disciplinar que norteia toda a vida: ouvir mais, falar menos e se colocar a caminho das necessidades da Igreja.

O exercício da interioridade agostiniana é, então, em seu processo de busca, libertação da escravidão das coisas (do materialismo e do hedonismo), para encontrar a Verdade e viver em conformidade com a mesma. É oração e contemplação; um modo novo de colocar-se diante do Absoluto, de si mesmo e das coisas; via de esperança que Agostinho aponta para o homem de hoje: “é melhor ter menos necessidades que possuir mais coisas” (Regra 3,18).

"Não saias fora de ti, volta-te a ti mesmo; a verdade habita no homem interior, e, ao dar-te conta de que tua natureza é mutável, transcende a ti mesmo... Busca, então, chegar lá onde a própria lâmpada da razão recebe luz'' (A verdadeira religião 72) [5].

O desenvolvimento espiritual de Agostinho está relatado em suas Confissões; é um itinerário desde os afetos desordenados até a ordem do amor, em que se chega a Deus, não primordialmente por meio das práticas ascéticas, nem por uma ascensão intelectual, mas por um amor humano, voluntário e afetivo, unificado pelo Espírito Santo que se converte em caridade: Ora et Labora que São Bento adotou quase dois séculos depois em sua Regra. Em sua espiritualidade existem aspectos individuais, sociais e institucionais. É uma visão cristã da vida a que uma pessoa se compromete por meio das ações. Seu fundamento se encontra na fé em que as pessoas humanas são amadas por Deus Pai, enquanto ele ama a seu Filho. Esta verdade, uma vez experimentada, abre o coração para uma íntima comunhão com Deus na oração, e, logo, no culto litúrgico na comunidade eclesial. A verdade do amor a Deus por cada ser humano é revelada por meio dos atos da criação e da encarnação do Filho, efetuada por Deus Uno e Trino para redimir e santificar a todos. Assim que, para Santo Agostinho, a espiritualidade denota da vida no Espírito Santo, há qual faz com que as pessoa humana seja semelhante a Cristo, dando-lhe a caridade, que lhes permite rezar exclamando “Abba, Pai!” (Rm 8, 15). Então, a união com Cristo, em quem um se converte em filho do Pai, não por natureza, senão por graça, é para Agostinho a realidade básica da oração e da vida cristã. Isto origina uma continuada conversão para identificar-se mais e mais com Cristo[6].



Conclusão

É bem verdade que ao tentar falar de uma espiritualidade em Santo Agostinho, devemos ter cuidado para não fugir da sistematização que ele propõe, porque são vastos os meios que temos para isto, dentre eles, é bom lembrarmos, que não existe uma concordância em tudo o que afirma ser de fato, uma espiritualidade eminentemente agostiniana. Mas, procurei aqui olhar para Agostinho como aquele que propõe um caminho espiritual que não é intimista ou egoísta, quando se fala de interioridade, mas deve ser entendido como um projeto de vida em comunhão, na qual o ser humano é convidado a sentir-se solidário com o outro, sinta a solidariedade do outro, e, sinta-se participante de uma mesma dignidade, apesar das diferenças pessoais; comunhão em que as pessoas se aceitam reciprocamente e se queiram bem assim como são, sem prejuízos ou preconceitos. Agora, claro, todos com os corações voltados para Deus. Pois, é nessa proposta agostiniana, onde encontramos as maiores contradições com a vida moderna.

A vida em comunidade contrapõe ao individualismo, à intolerância, ao preconceito nas suas mais variadas faces. A vida em comunidade tem a sua tradução no mundo de hoje quando nos preocupamos de forma incondicional com o bem-estar do outro e do mundo, pois sem o outro e sem a natureza ninguém pode sobreviver, não podemos viver sobre e as custas do outro, mais sim, por e com o outro, que é meu semelhante, digno do mesmo respeito e direitos. E este ambiente, de respeito mútuo, só é possível para Agostinho com a vivência de um outro grande valor agostiniano: a amizade que não foge de sua espiritualidade. Com isto, podemos concluir que a experiência espiritual proposta pelo Bispo de Hipona pode ser sintetizada da seguinte forma: busca intensa da Verdade; e, tendo-O encontrado, a ele dedicar-se inteiramente em comunhão com os irmãos, como já vimos no decorrer da leitura.

JWFS, crl
Publicado em: 07/06/2014


[1] MADRID, Teodoro C, La Iglesia católica según San Agustín, Madrid, Revista Agustiniana, 1994. Pág. 292.
[2] PINCKAERS, Servais, Em busca de Deus nas Confissões: passeando com Santo Agostinho, São Paulo, Loyola, 2013. Pág. 24.
[3] AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona, Confissões: livro X, n. 38. São Paulo, Paulus, 2002. Pág. 299.
[4] TONNA-BARTHET, Pe. Antonino, Síntese da Espiritualidade Agostiniana, São Paulo, Paulus, 1995. Pág. 33.
[5] http://www.osabrasil.org/interioridade_carisma.htm    Acesso em 19/06/2014 às 14:17.
[6] DICCIONARIO de San Agustin: San Agustin a través del tiempo, Burgos, Monte Carmelo, 2006. Pág. 514.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL I

Quando se fala de Santo Agostinho, principalmente entre os seguidores de sua Regra, perguntam-se entre si, como se define a espiritualidade canonical, como a espiritualidade beneditina, franciscana, secular, caritativos e etc.

Se verdadeiramente conhece-se profundamente o pensamento agostiniano, suas obras e as consequências de seus ensinamentos na História da Vida Religiosa e da Teológica na Igreja, compreender-se-á a Espiritualidade de Santo Agostinho. Pois, definimos o Carisma Canonical como um caminho comunitário que se faz pela busca de um conhecimento profundo de cada pessoa, trabalhando toda a sua interioridade na Escola do Evangelho, para que, consequentemente, obter um conhecimento pleno de Deus.

Então, o caminho espiritual canonical foi construído por Santo Agostinho e fundamentado na Verdade que é o próprio Cristo Jesus. Tendo o conhecimento de si, sirva a Ele com mais amor, intimidade, com segurança para com a suas Obras. Para melhor traduzir esta busca de Deus e este conhecimento do homem, o grande cônego regular Tomas de Kempis traduziu este caminho em um famoso livro chamado de Imitação de Cristo. Numa época de mundanização, o remédio mais eficaz que ele encontrou foi olhar para a riqueza espiritual que a Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho tinha e tentar traduzir para os religiosos por meio da meditação pudesse ter acesso, com uma roupagem nova: imitar a Cristo, evitar que a febre pela busca do conhecimento humanista ateu e o existencialismo racionalista contaminasse as casas religiosas. Sendo assim, Tomas, olhando para Santo Agostinho, defende e difunde uma espiritualidade cristocêntrica, que propunha a ruptura com o mundo e a conversão a Deus.

A humildade do cônego Tomas foi perceptível por toda a Igreja. Apesar da popularidade de seu livro Imitação de Cristo, não se tinha conhecimento de quem o escrevera, de seu autor. Não é de se admirar, pois no Capítulo II lê-se: “estima ser ignorado e tido em nenhuma conta” ou no original em latim: “ama nesciri et pro nihilo reputari”. O Capítulo V adverte os leitores a não procurar quem disse, mas a prestarem atenção ao que foi dito: “non quaeras quis hoc dixerit: sed quid dicatur atende”, ou seja, não importa quem escreveu “A Imitação de Cristo”, mas tão somente a sua mensagem.

O contexto histórico da contribuição dos cônegos na Igreja com sua espiritualidade

Kempis estava localizada na região da fronteira com a Bélgica e a Alemanha atuais, na área de cultura conhecida como flamenga, ou seja, holandesa. Naquela área surgiu o movimento denominado devotio moderna para contrapor a devotio antiqua em voga. A devotio antiqua era praticada por um clero decadente, o qual não punha mais o próprio coração nas celebrações litúrgicas e nas práticas devocionais. Lembrando que se trata do século XV, pouco antes da Revolução Protestante. Além disso, apresentava uma mística intelectualizada, mais preocupada com questões abstratas que com as dificuldades cotidianas. Ela era praticada sobretudo na região do Rio Reno e seu representante mais ilustre foi o dominicano Mestre Eckhart, mais tarde acusado como herege e que teve parte de seus escritos condenados. Por fim, ela apresentava uma ascese inalcançável. As pessoas se propunham penitências dificílimas, iam em busca de heroísmo ascéticos tão terríveis que se tornava impossível cumpri-las.

Nesse cenário, surgiu a devotio moderna propondo que sacerdotes e religiosos empenhassem o coração no culto a Deus, saindo do automatismo. Para fugir da intelectualidade exacerbada, centralizaram a devoção em Cristo. Ela rapidamente se tornou popular, pois, além de cristocêntrica, oferecia a todos práticas de penitência e de mortificação mais acessíveis. Tomas ao escrever este livro para a sua comunidade canonical, procurou colocar o fiel em contato com Cristo, ajudando-o em seu processo de conversão, o qual exige uma ruptura com o mundo. Justamente nesse ponto a obra é criticada, pois a separação do mundo que ele sugere faz com que seja tachado de individualista, ou seja, com uma espiritualidade desencarnada, fora do mundo real, mas na verdade não é nada disso. Tomas chamava a sua comunidade para a essência da vida religiosa, a tal ponto que este livro ultrapassou as paredes do mosteiro, chegando a todas as partes do mundo católico.

Hoje, revisitando a história e o tesouro da riqueza espiritual que está sobre os ombros da Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, percebe-se que para viver o carisma canonical, basta primeiro ser uma pessoa amante pela Verdade que é Jesus Cristo, depois, desejar imitá-lo em sua apostolicidade, seguindo o sistema adotado pelo Bispo de Hipona.

Sempre olhar para o outro que está do meu lado, como um irmão que, juntos viveremos em um só coração, uma só alma, voltados para Deus. Nenhuma personalidade sã, agradável, integrada é proibida, mas trabalhada para melhor servir a comunidade de irmãos e a Igreja. Pois, é maravilhoso conviver com pessoas que se amam e amam os demais. Pode haver conflitos, mas nunca uma guerra, pois a amizade sempre reinará.

Santo Agostinho diz em suas Confissões (L. 1, 6) que “nossa alma é morada muito estreita para receber o Senhor, mas é alargada por Ele, quando se permite conhecimento pessoal de que somos limitados pelo pecado para essa plenitude”.

Quando olhamos para S. Agostinho como um exemplo de fidelidade e de serviço a Deus, com os irmãos; entenderemos que a espiritualidade canonical é a vida de entrega a Deus e aos irmãos, como fez, tantos santos que veneramos nos altares de nossa Igreja.

O auge para entender plenamente o carisma, a espiritualidade canonical é reconhecer a comunidade em que se vive, como um dom de Deus. Santo Agostinho compreende esse compartilhamento de vida, como graça do Senhor. E, a comunidade religiosa tem por obrigação de ajudar-se mutuamente para vencer os três inimigos clássicos do homem que são: Pecado, Mundo e Carne.

É fato, as normas que seguiam no mosteiro fundado pelo Bispo de Hipona não eram exigentes demais, nem excessivamente frouxas. Com o espírito prático que o caracteriza e uma consciência espiritual trabalhada e elevada, Agostinho compreendeu que a melhor regra de disciplina era conservar a justa medida que fluía sempre do caminho espiritual proposto por ele. O estudo, a oração de louvor e o exercício prático da caridade fraterna fazem da comunidade de Tagaste, um reflexo vivo da primeira comunidade apostólica mandou escrever na parede do refeitório uma frase em latim que, traduzida, fica assim: “Aquele que gosta de falar mal dos ausentes, saiba que é indigno de sentar-se nesta mesa”. Um dia, nos conta São Possídio, como alguns de seus amigos e colegas no episcopado houvessem esquecido esta sentença, os repreendeu com severidade e disse, cheio de caritativo rigor, que, ou haviam de apagar-se aqueles versos ou ele se retiraria imediatamente.

Que todos aqueles que abraçaram o carisma canonical, aperfeiçoem-se sempre mais para a cada dia, parecer-se com Cristo, chegando a afirmar com S. Paulo: “Não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL II
A prática da espiritualidade como alimento do Carisma canonical


A espiritualidade da Ordem é eminentemente agostiniana. A bússola que orienta o estilo de vida canonical são os Evangelhos, a Regra de Santo Agostinho e as Constituições.

Dois são os elementos essenciais da Ordem: o ser Cônego e o ter a Regra de Santo Agostinho. O primeiro elemento nos faz descendentes, herdeiros e continuadores da vida canonical; o segundo nos comprometem a viver uma vida comunitária, na busca e permanência do serviço litúrgico, e na vida apostólica.

Um cônego lateranense cultiva em si os aspectos que alimentaram a vida espiritual do Bispo de Hipona, já que segue a sua Regra:

1. Elemento Cristológico: Cristo era para Agostinho o centro de sua vida. Quando leu o Hortensio se desiludiu porque não encontrou nele o nome de Cristo. Quando aparecem os maniqueus adere a eles porque prometem ajudá-lo a buscar a verdade.

2. Elemento eclesial: Agostinho após seu batismo que se deu na noite santa de 24 de abril de 387, se coloca a serviço da Igreja; no primeiro momento não quis ser sacerdote, mas aceitou porque os fiéis lhe pediram; tampouco desejava o episcopado e aceitou por obediência. O intuito era viver unicamente uma vida de comunidade com seus irmãos, porém, dedicou-se primeiramente ao cuidado de sua diocese de Hipona, sem nunca deixar de viver em uma comunidade de irmãos. Obs: O Bispo a partir do séc. IV com o cessar a perseguição contra os cristãos, vai se tornar também juiz, pelo fato de ser uma liderança respeitada e reconhecida pelo povo.

3. Elemento da caridade: no entendimento e vivência dele como virtude que modera todos os exercícios de ação e contemplação. Daí a insistência do santo em ter uma só alma e um só coração dirigidos para Deus. Pois, Deus sempre esteve ao lado dos pobres, veio para os pobres e se fez pobre.

4. Elemento comunitário: Agostinho está inspirado para uma vida em comum. Ser comunidade é algo essencial para os seguidores da Regra, por tanto, viver em comunidade deve ser sua principal aspiração. Agostinho apresenta a Trindade como uma Comunidade perfeita de amor, um só coração e um só espírito, num corpo divino.

5. Viver a Espiritualidade Canonical: Ser pessoa de vida fraterna que professa os conselhos evangélicos dentro de um Carisma, eis a obrigação, englobando uma vida litúrgica, unida a vida apostólica. A comunidade orientada pela Regra e as Constituições, é convidada a oferecer um ambiente que permita o cônego a entrar dentro de si, onde encontra a Deus esperando-o e, iluminado por Cristo, Mestre interior, transcende a si mesmo, renova-se segundo a imagem do homem novo que é Jesus e se pacifica na contemplação da Verdade. Para o alcance de tal meta, a grande via é pelo estudo permanente da Sagrada Escritura e da Tradição, ouvindo o Magistério da Igreja, alimentado sempre dela Eucaristia.

A vocação canonical é uma contínua conversão e imitação de Cristo. Só com ajuda de Cristo, mediante uma purificação pela humildade, o homem pode entrar dentro de si mesmo onde encontrará os valores eternos, reencontra Cristo e reconhece nos irmãos. Esta interiorização é o princípio de toda piedade.

6. Consagração dos irmãos: O chamamento e a consagração comprometem o cônego a uma doação total a Deus, a uma imitação e a um seguimento mais livre e mais radical de Cristo, vivendo mais para ele e para seu Corpo, que é a Igreja.

Os religiosos da Ordem, em comunhão de caridade com os irmãos, caminham para a consagração perfeita, que será a comunhão com o Pai e com o Filho Jesus Cristo, na força do Espírito Santo. Enquanto não se toma consciência desta exigência que a Vida Consagrada na Igreja obriga, a força vital da Ordem pode enfraquecer: primeiro um cônego é consagrado, depois, pode ser ordenado. Mas o sacramento da ordem não é ponto constitutivo da Congregação, mesmo sendo ela eminentemente clerical, conforme reza as Constituições vigente.

7. Comunidade que Reza e Celebra: A oração ajuda o cônego a descobrir a presença misteriosa de Deus no coração dos homens, para amá-los como irmãos. O Espírito de Jesus faz perceber, por meio da oração, as manifestações do amor de Deus na trama dos acontecimentos; desta forma, conseguir-se-á a síntese necessária entre oração e vida.

8. Os cônegos e a Eucaristia: A Ordem Canonical tem a santa culpa de preparar a Igreja para o culto a Santíssima Eucaristia, graças a Santa Juliana de Cornelión e o Papa Urbano IV, ambos cônegos regulares de Santo Agostinho. Graças a eles, temos a festa de Corpus Christi. Na Polônia temos o Santuário do Santíssimo Sacramento e a figura de Santo Stanislaw Casimiritano, como conservadores deste amor e respeito eucarístico. Recordarmos também a São Norberto, mestre da contemplação eucarística. A Eucaristia é Dom da SS. Trindade. Se lermos com atenção o discurso sobre o Pão da Vida no sexto capítulo do Evangelho segundo S. João, vamos notar que Jesus apresenta a Eucaristia como dom da SS. Trindade. Primeiro ele declara: “O meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6, 32-33). Em seguida, ele revela que ele mesmo é “o pão vivo que desceu do céu.” E acrescenta: “E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 51). Por fim, ele fala do Espírito Santo dizendo: “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6, 63). Assim, o Evangelho revela a Eucaristia como dom trinitário, dom que vem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. De fato, a Eucaristia “está no centro da vida trinitária” como mostra o célebre ícone de Rublev. Portanto, para penetrarmos mais profundamente no Mistério Eucarístico, temos que contempla-lo à luz da SS. Trindade.

A celebração da Eucaristia é e deve ser o ato principal de cada dia, no qual a comunidade dos irmãos encontra-se reunida diante do altar de Cristo e anuncia a morte e ressurreição do Senhor.

9. A Virgem Maria: Cada cônego é convidado a amar filialmente e procura imitar a Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, em cuja proteção se apoia a Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, sobre o título de Mãe do Salvador. O amor à Virgem Santíssima deve ser cultivado, pois São João XXIII ao aprovar a Confederação das Congregações canonicais, consagrou as mesmas ao Imaculado Coração de Maria.

Também celebramos as memórias dos Santos de nossa Ordem, como sinal de comunhão com toda a família canonical. Muito nos alegram em saber que os nossos confrades alcançaram a salvação. Ao celebrar as suas datas comemorativas, renovamos o convite à perfeição de vida.

10. Comunidade penitente: A virtude da penitência exercita-se principalmente no cumprimento fiel e constante do dever, na aceitação das dificuldades que dimanam do trabalho e do contato com os homens e finalmente suportando com paciência e amor as vicissitudes desta vida transitória, da enfermidade e da morte.

Os Cônegos fazem todos os dias seu exame de consciência, no momento da oração das Completas e é convidado a aproximar-se frequentemente do sacramento da Penitencia. Também, reza nas Constituições que se façam três celebrações penitencias comunitárias nas canônicas: na véspera da Solenidade do Natal do Senhor (25/12), na sexta-feira Santa e na véspera da Solenidade de Santo Agostinho (28/08), para um reconhecimento comunitário das fraquezas e a retomada da caminhada, perdoados mutuamente.

Ouvindo a Jesus Cristo que convida a negação de si mesmo, a tomar a cruz e a segui-lo, os cônegos, além de cumprir as penitências impostas pela lei eclesiástica, praticam outros atos de mortificação, especialmente nas quartas-feiras e sextas-feiras do ano, na quaresma.

11. Os irmãos doentes: A Regra de Santo Agostinho pede um especial cuidado para com os doentes, dando-lhes um tratamento todo especial na alimentação e na higiene, traduzindo assim a atenção na totalidade da saúde dos irmãos. Os Superiores são convidados a olhar com toda caridade, de acordo com as necessidades de cada um.


12. Os irmãos defuntos: Quando morre um irmão a canônica a que ele pertence, comunica às demais, para que todos os Cônegos rezem por ele (cf. Const.Cap. X e XI).

Todos os anos celebrem-se nas canônicas da Ordem Missas e o Ofício dos defuntos em sufrágio das almas: dia 27 de janeiro pelos pais e mães; no dia 05 de setembro ou no primeiro dia litúrgico livre, o aniversário de falecimento dos confrades, parentes e benfeitores.


ESPIRITUALIDADE CANONICAL III
                      

A vida religiosa para Santo Agostinho se caracterizava pela configuração com Jesus Cristo Mestre e Senhor. Portanto, a formação canonical deve ser obrigatoriamente concebida e estruturada no seguimento à pedagogia do próprio Senhor Jesus Cristo. De tal modo o candidato à vida canonical é introduzido na dinâmica formativa a qual o Mestre Jesus se submeteu, ou seja, aprender Dele e com Ele “crescer em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”, para atingir a estatura e a maturidade de Cristo.

Então o cônego deve percorrer o itinerário formativo semelhante ao de Jesus, que se inicia no anonimato em Nazaré (postulado), passando pela consagração no seu Batismo e pela purificação no deserto; abandonando-se na vontade do Pai (noviciado), seguindo sua missão na vida pública (juniorado) até morrer com Ele na Cruz e com Ele ressuscitar (formação permanente). Em outras palavras, desde que o jovem se propõe à sequela de Cristo, deve passar pelas mesmas etapas quais passou o Mestre Jesus.

Agora veremos o que dizia São Posídio ao escrever sobre Santo Agostinho, afim de entendermos melhor este espírito formativo por meio do exemplo:

“Senti-me inspirado por Deus que criou e governa o universo, a empregar meus limitados recursos de inteligência e palavra para a edificação da Igreja Católica de Cristo Senhor, santa e verdadeira...” em consequência disso, também eu, o menor dos administradores dos dons divinos, animado da fé sincera que é indispensável para servir ao Senhor dos senhores e a seus fiéis, assim como para ser-lhes agradável, empreendi narrar, auxiliado pela graça de Deus, o nascimento, a vida e a morte baseado no que ele (Agostinho) me contou e no que eu mesmo verifiquei, tendo usufruído por muitos anos de sua amizade, testemunho que Agostinho foi verdadeiramente um homem de Deus”. (POSSÍDIO, São. Vida de Santo Agostinho, Paulus, São Paulo, 1997)

Santo Agostinho em 387, fundou uma comunidade para ser um lugar onde se cultive a fé no Deus Trino, a esperança de um mundo melhor e a caridade que une os irmãos no serviço mútuo. Quem quiser seguir as pegadas de Santo Agostinho tem que saber escutar a Cristo comunidade que ama o Pai e nos envia o Espírito Santo. Ele disse certo dia em um dos seus sermões, fazendo um comentário ao Evangelho de São João: “Você quer caminhar? Eu sou o Caminho. Você não quer ser enganado? Eu sou a Verdade. Vocês não querem morrer? Eu sou a Vida”. E é justamente esse elo que une todos os que seguem a Regra agostiniana! Um Caminho a percorrer, uma Verdade a ser vivida pra depois ser proclamada e uma Vida a ser defendida, amada e entregue a todos. Não se pode fazer um divórcio entre a Regra de Santo Agostinho e a vida de quem a segue, porque a regra é a alma do Instituto. Toda regra de vida oferece um carisma e uma espiritualidade. Por isto que os cônegos têm um carisma e uma espiritualidade bem definida!

Compreenderemos o que este homem de Deus aconselhava aos novos membros de sua comunidade: “Vocês devem ir aonde a Igreja necessite”. Esta é a beleza da espiritualidade agostiniana. Não ter um carisma fechado ou estritamente específico, quer dizer, estar aberto a todos os dons que o Espírito Santo vá presenteando a cada irmão na comunidade. É se fazer presente em todos os lugares, culturas, línguas e raças, sem perder o foco, anunciar Cristo Jesus, Salvador e Senhor de nossas vidas.

Resumindo todo o carisma de Santo Agostinho vemos que é: Amar a Deus sem condições, saber viver em comunidade como irmãos, experimentar a Cristo na interioridade, servir a Igreja em tudo o que ela necessitar e o principal, anunciar a Cristo com a Palavra e com o exemplo de vida. O verdadeiro seguidor da Regra fala de Deus sem dizer uma só palavra. Uma prova disso são os milhares de santos e santas que quiseram viver baixo a Regra de Santo Agostinho nestes quase 1600 anos de história após sua morte. Santo Agostinho descansou o seu coração que passou a vida toda inquieto no seu Amor, a “Beleza sempre antiga e tão nova”, Jesus.  Santo Agostinho abriu uma porta para o serviço da Igreja que nunca mais fechou, e Deus multiplicou o seu rebanho. Que Nosso Salvador Jesus Cristo nos ajude e esteja sempre atento as nossas preces. Assim seja!

 Cônego José Wilson Fabrício da Silva, crl



[1]              Uma reprodução da Paixão do Cristo e de seu belo testemunho diante de Pilatos.

sexta-feira

A relação histórica da Virgem Maria com o Brasil

Brasil, nomeado logo nos primórdios de sua ocupação pelos portugueses no século XVI de “Terra de Santa Cruz”. Chegava ao “novo mundo” trazida pelos europeus uma “imagem de Nossa Senhora da Esperança”, devoção particular do comandante Pedro Álvares Cabral. Aqui começa uma história de relação, até então conhecida, entre a figura da Mãe de Jesus e o Brasil. Portanto, o nosso país foi “descoberto” sob o olhar terno e protetor também da Virgem Maria.
1717: três pescadores, uma rede e um milagre!
Passados mais de dois séculos após o episódio do descobrimento do Brasil, categoricamente vemos uma intervenção da Mãe de Deus em terras brasileiras no ano de 1717. Podemos dizer que (a vila de Guaratinguetá) “Aparecida”, entra para a história como um evento misterioso da parte do céu em busca de justiça pela causa dos menos favorecidos explorados, onde sua maior riqueza era o dom da fé. Maria passa a fazer parte da identidade do povo brasileiro. Por tanto, não se trata apenas de um acontecimento religioso, mas também, político, social e cultural, que não devemos deixar passar inadvertido nestes festejos pátrios dos 300 anos em que o Brasil celebra o encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
O agora tão conhecido escritor e repórter Rodrigo Alvarez pelos amantes de documentários, procurou retratar estes fatos em seu livro “Aparecida: A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil”. No capítulo vinte e sete, apresenta um dado histórico que me fez pensar e rezar sobre ele; pois, ao afirmar que a Princesa Isabel não se tornou rainha do Brasil por vários motivos de outros interesses que não eram os da monarquia, mesmo assim, não deixou o país sem uma Realeza:
Depois da oração, a coroa que a princesa Isabel dera de presente foi recolocada sobre a cabeça da santinha. Deixou de ser só um ornamento luxuoso que se juntava ao manto azul e lhe escondia a feiura do pescoço quebrado para se transformar num símbolo de poder. Era curioso. O Brasil ainda estava acostumado a viver numa República, sem nobres herdados de Portugal, mas passava a ter, tardiamente, uma rainha. Era um passo decisivo para a consolidação de uma imagem nacional que se completaria algumas décadas depois com sua proclamação como padroeira do Brasil.[i]
Coroa de ouro doada pela Princesa Isabel
Pensando sobre a fecundidade do Ano da Graça que estamos experimentando com o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima e o tricentenário do encontro prodigioso da Imagem da Imaculada em Aparecida, senti no coração o desejo de expressar um humilde pensamento à luz da mariologia encarnada na vida do povo, chegando a conclusão de que tanto em Fátima ou em Aparecida, nossa gente se ver na casa e na escola de Maria. Quais os fatores que me faz afirmar isto? Vejamos. 
Santuário Nacional, ponto de encontro do Catolicismo brasileiro
É fato, pelo menos uma vez em cada ano, milhões de brasileiros se preparam para visitar “a casa da Mãe”. São dias de preparação, horas de viagem, para ficarem breves minutos diante da Imagem milagrosa de Nossa Senhora em Aparecida. Para o romeiro, não existe cansaço que impeça a repetição anual deste ritual para chegar ao Santuário. Incluo aqui o pensamento da Dra. Lina Boff, para nos ajudar a compreender este sentimento de pertença dos peregrinos para com o Santuário Nacional do Brasil:
Nas romarias as pessoas refletem sobre a vida e transitam no seu coração para se encontrarem a si mesmas. Fazer uma reflexão significa meditar tanto sobre as coisas mais simples como as mais complicadas da própria vida, da vida da sociedade e do mundo para buscar um sentido profundo de como viver.
A vivência da fé, do culto e da devoção a Nossa Senhora, que nos aponta Jesus, significa trazer para o tempo presente as experiências que nos deram vitalidade e também aquelas que atrapalharam a nossa caminhada de vida. Trata-se de revitalizar todas as dobras do nosso coração, dentro das quais se escondem as nossas conquistas, mas também os nossos fracassos e frustações.[ii]
“É como se estivesse em casa”, assim se sente e expressa um fiel devoto da Virgem Aparecida. Eis a grande responsabilidade dos Missionários Redentoristas! Cuidar bem do povo peregrino, pregar a sã Doutrina, insistir com os visitantes na vivência cotidiana dos sacramentos nas mais diversas comunidades católicas espalhadas em nosso imenso Brasil. Os devotos que visitam o Santuário sabem muito bem que não estão ali por mera tradição familiar, nem porque gostam de fazer turismo religioso. Se estão no Vale do Paraíba, é porque acreditam que lá a Mãe de Jesus escolheu para mostrar a sensibilidade de Deus para com o povo brasileiro.
Santuário Nacional de Aparecida
Em todos os lugares reconhecidos pela Igreja, por causa das manifestações marianas, Aparecida ocupa um lugar especial, constituindo pouco a pouco, parte da cultura brasileira. Hoje, mesmo aqueles que não creem, sabe que o Brasil deixou cativar seu coração pela Imaculada representada na imagem quebrada encontrada no Vale do Paraíba. Ali não aconteceu uma verdadeira aparição, no sentido minucioso da palavra, mas fomos surpreendidos por uma constelação de sinais vindo dos céus e de manifestações de fé de todas as classes sociais nestes trezentos anos. Diante do fenômeno de Aparecida, acorreram escravos, portugueses, índios, ricos, pobres, gente do Sul e do Norte, do Leste e do Oeste do Brasil e do mundo.
Utilizando o termo técnico da mariologia para se falar do Brasil, não temos dúvida de que em Aparecida aconteceu uma mariofania (manifestação da intervenção da Virgem Maria no meio do povo). Em outras palavras, houve uma ação sobrenatural, desconhecida e inexplicável cientificamente nos comprovados “milagres” reconhecidos pela Igreja que ganhou um significado espiritual: “A Virgem Maria libertou o escravo, curou a cega, fez parar o cavalo na entrada da capela, apagou e fez acender as velas sobre o “altar da santa” e fez aparecer os peixes para alimentar miraculosamente, inclusive, os exploradores dos pobres da Vila. Se em Caná da Galiléia a Mãe de Jesus disse: “Eles não têm mais vinho”, em Aparecida ela disse: “Eles não têm mais peixe”. Conforme Messori, dizemos:
Em Jesus, a fé vê Deus quem vem até o homem. Em Maria, descobre a criatura humana que é elevada até Deus. A humildade do Criador e a dignidade da criatura. É a dinâmica do “duplo movimento” (alto e baixo) sobre o qual se constrói todo o cristianismo. Da síntese dessas duas realidades nasce a fé autêntica.[iii]
 
No Brasil a Virgem é representada de mãos postas no séc. XVIII, na França “passa as contas do rosário nos dedos de suas santas mãos” no séc. XIX, em Portugal ela convida os santos pastorinhos de Fátima a “rezar e oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores” no séc. XX.
À luz desta afirmação, podemos ter a certeza de que no Brasil, a Virgem Maria fez brilhar a glória de Deus por meio de sua intercessão. A Igreja, reconhecendo os feitos realizados pela Mãe do Senhor aqui nestas terras, repete com todas as gerações a saudação de Isabel: “Tu és bendita mais do que todas as mulheres; bendito é também o fruto do teu ventre (cf. Lc 1, 42). Para os brasileiros, cada Ave Maria deve ser uma profissão de fé na maternidade divina.
No Brasil a Virgem é representada de mãos postas no séc. XVIII, na França “passa as contas do rosário nos dedos de suas santas mãos” no séc. XIX, em Portugal ela convida os santos pastorinhos de Fátima a “rezar e oferecer sacrifícios pela conversão dos pecadores” no séc. XX. Sendo assim, os mistérios que contemplamos em cada dezena mostram a união entre Jesus e Maria, manifestam e lembram novamente a cooperação de Mãe de Jesus na obra da Redenção, realçando o direito que ela tem à nossa particular veneração. O próprio Filho benditíssimo de Deus não quis entregar a sua vida em sacrifício, sem a presença daquela que lhe deu a existência humana, indicando assim o papel importante de Maria Santíssima no Mistério da Reconciliação do mundo. Repito, em Aparecida, Nossa Senhora de mãos postas em prece, obriga a todos nós a reconhecer sua grandeza diante de Deus e sua maternidade no meio de nós.

Cônego José Wilson Fabrício da Silva, crl
Membro da Academia Marial de Aparecida

[i]           ALVAREZ, Rodrigo. Aparecida: A biografia da santa que perdeu a cabeça, ficou negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil. São Paulo: Globo Livros, 2014, p. 182.
[ii]             BOFF, Lina. Aparecida: 300 anos de romaria e prece. São Paulo: Paulinas, 2017, pp. 11-12.
[iii]             MESSORI, Vittorio. Hipóteses sobre Maria: Fatos, indícios, enigmas. Aparecida: Santuário, 2014, p. 184.
Fonte: http://www.a12.com/santuario-nacional/formacao/detalhes/a-relacao-historica-da-virgem-maria-com-o-brasil